Entidades culturais ligadas ao Carnaval de Salvador já podem se preparar para concorrer a um total de R$ 2,5 milhões em recursos públicos. O edital Prêmio Wanda Chase, lançado pela Prefeitura de Salvador, vai contemplar 250 entidades com R$ 10 mil cada. As inscrições começam nesta terça-feira (15) e seguem até 19 de novembro, conforme as regras estabelecidas no documento, disponível no site da Secretaria Municipal da Reparação (Semur).
O anúncio foi feito nesta segunda-feira (14) pelo prefeito Bruno Reis e pela secretária municipal da Reparação, Isaura Genoveva, na sede da Secretaria de Cultura e Turismo (Secult), no bairro do Comércio. A iniciativa é voltada ao reconhecimento da trajetória cultural e da contribuição sociocultural de instituições que atuam na preservação e valorização de expressões culturais negras e populares na cidade.
Quem pode participar
Podem concorrer ao prêmio afoxés, blocos afro, blocos de reggae, blocos de samba, blocos indígenas, grupos de capoeira e coletivos de hip hop com sede ou atuação em Salvador. Para isso, é necessário atender aos critérios previstos no edital, entre eles ter no mínimo cinco anos de fundação e comprovar participação em pelo menos duas edições do Carnaval soteropolitano.
A seleção levará em consideração aspectos como perfil e trajetória da entidade, atuação no combate à discriminação racial, relevância para a promoção das expressões culturais afro-brasileiras, tempo de existência e participação em desfiles. A premiação também considera a atuação das entidades na valorização da cultura afro-brasileira e no enfrentamento ao racismo.
Pontuação adicional e critérios de diversidade
O edital estabelece pontuação adicional para entidades que apresentem maior representação de mulheres, jovens, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQIAPN+ e quilombolas em seus corpos diretivos. Essa pontuação incentivada pode chegar a dez pontos, conforme os critérios estabelecidos no edital, sem caracterizar reserva de vagas.
Política permanente de reparação
Segundo a secretária Isaura Genoveva, a premiação busca transformar em política permanente uma iniciativa que já vinha sendo desenvolvida pela Prefeitura para apoiar manifestações culturais negras e populares. Ela afirmou que a gestão já apoiava blocos de matriz africana e indígenas ao longo dos anos, mas decidiu estruturar a ação para que se torne algo permanente, independentemente da gestão. Para isso, segundo a secretária, foi alterado o Estatuto da Igualdade Racial, com a criação de um artigo novo, fazendo uma reparação por meio da cultura de Salvador, da cultura preta.
De acordo com o prefeito Bruno Reis, o Prêmio Wanda Chase é uma iniciativa de reparação étnico-racial concebida para reconhecer a trajetória de grupos que contribuem para a preservação de saberes, tradições, identidades e expressões culturais que integram a história de Salvador. Ele explicou que a premiação irá valorizar e apoiar diversos blocos que desfilam no Carnaval de Salvador e que levam a beleza negra para os circuitos na maior festa de rua de todo o planeta. O prefeito acrescentou que as instituições que se apresentam na folia poderão se credenciar a partir de amanhã e que o processo ocorre de forma democrática, somando-se a outros investimentos que a Prefeitura concede, como a disponibilização de trio e minitrio, a contratação de atrações e patrocínios.
Mais tempo para planejamento
Para representantes de entidades carnavalescas, o edital também permite que os grupos tenham mais tempo para organizar suas atividades de preparação para o Carnaval. É o que avalia Alberto Lázaro, conhecido como Betão, representante da Associação do Coletivo de Entidades Carnavalescas de Matriz Africana e do Bloco Sambetão. Segundo ele, os grupos vão conseguir se planejar com mais antecedência para a folia. Betão afirmou ter 57 anos de festa, desfilando nos circuitos Batatinha e Osmar, além de um trabalho centralizado na região da Cidade Baixa, no Uruguai, Roma, Mares e na Ribeira. Em sua avaliação, trata-se de uma política pública acertadíssima da Prefeitura.
Homenagem a Wanda Chase
O prêmio presta homenagem a Wanda Chase (1950-2025), jornalista amazonense que construiu carreira na Bahia e que foi uma das personalidades associadas à história do Carnaval de Salvador e à valorização da cultura negra no estado. O prefeito Bruno Reis destacou o legado da profissional e a proximidade dela com os movimentos negros e blocos afro de Salvador.
Wanda era uma jornalista que cobria a área da cultura, sempre com muita emoção, sempre na defesa dos movimentos afro da nossa cidade, levando isso para o Brasil e para o mundo.
O prefeito afirmou ainda que Wanda deixou uma contribuição significativa para todos que militam no movimento negro em Salvador. Presente na cerimônia de lançamento do edital, Thelma Chase ressaltou a relação afetiva da irmã com o estado. Ela declarou-se extremamente emocionada e afirmou que Wanda amou Deus, a família, a Bahia e os baianos. Thelma também disse que a Bahia respeita e mantém viva a história, a construção e o legado deixados por Wanda, e agradeceu o respeito de todos em nome da família.