Na 53ª etapa da Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) do Rio São Francisco, no Oeste baiano, a proteção aos animais silvestres vai além das apreensões. A atuação da equipe Fauna, coordenada pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), combina fiscalização de criadouros, acolhimento de animais resgatados e ações de educação ambiental em escolas e comunidades. O objetivo é transformar a relação da população com a fauna silvestre — e os primeiros resultados já aparecem.
Fiscalização começa antes de ir a campo
Enquanto uma parte da operação atua na sensibilização das comunidades, técnicos do Inema coordenam as inspeções dos criadouros cadastrados no Sistema de Controle e Monitoramento da Atividade de Criação Amadora de Pássaros (Sispass). Coordenadora da Fauna de Campo e técnica do Inema, Carla Guimarães explica que o trabalho começa no escritório. “Analisando o sistema e verificando os possíveis pontos de interesse. Em campo, observamos se o plantel informado corresponde à quantidade de animais existente no local”, afirmou.
Segundo Carla, predominam criadores regularizados nos municípios visitados. O alerta, porém, é para práticas ilegais como o “esquente de anilhas” — quando aves retiradas da natureza usam anilhas de animais legalizados que morreram. “O animal silvestre veio da natureza. A falta dele no meio ambiente causa impactos, inclusive diminuição da fauna e até risco de extinção”, pontuou.
Tráfico: 9 em cada 10 animais morrem no caminho
As ações contam com apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que atua no combate ao transporte ilegal. O policial rodoviário federal Uequison alerta que o transporte clandestino ainda é recorrente. “Os animais são transportados em condições muito ruins, amontoados em compartimentos pequenos. Dados da RENCTAS apontam que de 10 animais traficados, 9 morrem no percurso”, disse. Ele também destacou o papel da população: “Muita gente acha inofensivo ter um papagaio em casa, mas quem compra alimenta toda uma cadeia ilegal”.
Entrega voluntária e conscientização nas comunidades
Além da fiscalização, a equipe Fauna investe no diálogo com as comunidades. Coordenador da equipe e presidente da Animallia Ambiental, Alison Sá explica que o trabalho busca incentivar a entrega espontânea dos animais mantidos irregularmente. “A entrega voluntária acontece a partir da conscientização. As pessoas entendem os impactos do cativeiro irregular e decidem entregar espontaneamente”, afirmou.
Resultado: o morador Adeildo Santos entregou os quatro animais que mantinha em casa após conversar com os educadores. “Chegou essa oportunidade e agora eu não crio mais nada”, disse. Já Idaliane Ferreira entregou dois pássaros pretos. “O bichinho tem asa, o bichinho tem que voar mesmo”, comentou.
Escolas como aliadas na proteção da fauna
A conscientização também chega às escolas do Oeste baiano. Ações incluem palestras, rodas de conversa e exibição do documentário sobre Chica, uma macaca bugio resgatada em 2012 e reintroduzida na natureza. Doutora em Biologia e integrante da Animallia, Silvilene Matias explica: “A gente explica sobre a fauna silvestre, porque esses animais são tão importantes e porque precisamos preservá-los”. Alison Sá completa: “As crianças são multiplicadores de informação para levar essa conscientização para dentro de casa”.
Na base, o cuidado com os animais resgatados
Todo esse trabalho converge para a Fauna Base, espaço que recebe os animais entregues ou resgatados. Em apenas um dia, 76 animais chegaram por entrega voluntária. Nos três primeiros dias, aproximadamente 100 indivíduos foram recebidos. Coordenadora da Fauna Base e médica veterinária, Mylla Roberta detalha o processo: “Assim que recebemos o animal, fazemos uma checagem para identificar machucados ou debilidade. Muitos chegam fragilizados pelas condições do cativeiro irregular”.
Os animais passam por avaliação clínica e comportamental. Os saudáveis seguem para soltura em áreas apropriadas. Os debilitados são encaminhados para os Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas). A médica veterinária do Inema, Mayara Horn, explica que alguns animais seguirão para a Unidade Regional do Oeste, em Barreiras, ou para os Cetas de Cruz das Almas e Salvador. “Já estamos realizando atendimento médico veterinário emergencial no Cetas Oeste”, afirmou.
Entre fiscalização, diálogo e cuidado clínico, a atuação integrada da equipe Fauna mostra que proteger a fauna silvestre também passa pela construção de consciência ambiental — dentro das escolas, das comunidades e das próprias casas.