✦ Resumo

Projeto Afrobeto, em Salvador, alfabetiza crianças com referências afro-brasileiras, substituindo símbolos tradicionais após caso de intolerância religiosa na escola.

Professora e alunos em sala de aula
Fotos: Jefferson Peixoto / Secom PMS

Um projeto pedagógico criado na Escola Municipal Cidade Nova, em Salvador, está transformando a alfabetização de crianças ao substituir referências tradicionais por elementos da cultura afro-brasileira e africana. Batizado de Afrobeto, a iniciativa é fruto do trabalho da professora Bia Barreto e nasceu após um episódio de intolerância religiosa dentro da própria unidade de ensino.

O fato é que uma criança se recusou a aceitar uma bala dada pela diretora, por considerá-la “macumbeira”. O caso, segundo a educadora, serviu de gatilho para uma mudança pedagógica profunda. A turma passou a pesquisar o significado da palavra “macumba” e, aos poucos, foi descobrindo referências africanas presentes no cotidiano brasileiro. “As crianças começaram a trazer elementos como acarajé, berimbau, capoeira, dendê e efó. Cada uma passou a compartilhar um pouco da própria história e das suas vivências. No final, tínhamos uma lista de A a Z construída coletivamente”, contou Bia.

Como funciona o Afrobeto na prática

Mais do que um material didático, o Afrobeto é definido pela idealizadora como uma “tecnologia de afroletramento”. No lugar de palavras e imagens distantes da realidade dos alunos, o projeto trabalha com símbolos ligados à diáspora africana. Entre os exemplos, estão “A de acarajé”, “B de berimbau”, “D de dendê”, “Q de quiabo”, “S de samba”, “T de tambor” e “Y de yorubá”.

A diretora da escola, Andreia Fernandes, afirmou que o projeto passou a integrar o cotidiano pedagógico da unidade e contribuiu para mudanças na convivência entre os estudantes. A escola atende cerca de 260 alunos. “Vivemos em uma comunidade onde cerca de 90% do público é negro, então precisamos fortalecer a autoestima e o pertencimento dessas crianças. O Afrobeto ajudou muito nisso, porque elas passaram a se reconhecer dentro do material pedagógico”, apontou.

Impacto na redução do bullying e na autoestima

Resultado: a gestora escolar percebeu uma melhora significativa nos momentos de recreio, intervalo e educação física — horários em que antes ocorriam mais conflitos. “A gente percebe uma melhora principalmente nos momentos de recreio, intervalo e educação física, que antes eram os horários em que mais aconteciam esses conflitos”, afirmou.

O impacto também é sentido pelos alunos. “As atividades fazem a gente se reconhecer mais e entender coisas que antes eu não conhecia”, afirmou Graziele Conceição, de 10 anos. Já Sofia Gabriela dos Santos, de 9 anos, contou que passou a aprender mais sobre a África e a cultura afro-brasileira por meio do Afrobeto. “As aulas ficam mais divertidas e interessantes”, resumiu.

Professora da Escola Municipal Cidade Nova, Bia contou que o projeto também ampliou a compreensão sobre o papel da Educação Física no ambiente escolar. Segundo ela, o corpo também é espaço de construção social, identidade e letramento. “Hoje, nossas crianças entendem que Educação Física não é só quadra. Muitas vezes elas estão debatendo racismo, intolerância religiosa e questões sociais dentro das aulas. Isso começa a reverberar nas famílias e na comunidade”, disse.

Afro Goods: um desdobramento para colorir e aprender

O projeto ganhou ainda um novo desdobramento com o Afro Goods, criado por Bia como uma releitura afrorreferenciada dos tradicionais livros de colorir. Inspirado no fenômeno Bobbie Goods, o material traz personagens negros em atividades ligadas à cultura afro-brasileira. As ilustrações mostram crianças tocando tambor, jogando capoeira e representando diferentes corporalidades negras.

Também há edições temáticas, como o Afro Goods da Malandragem, em homenagem ao Santuário de Seu Zé Pilintra, em Salvador, e o Afro Goods da Copa do Mundo, que propõe discussões sobre representatividade negra no futebol. “Percebemos que o afroletramento começa antes mesmo da alfabetização. As crianças menores também precisam se identificar nas imagens e nas brincadeiras. Então criamos materiais para trabalhar pertencimento e identidade desde cedo”, explicou a professora.

O Afrobeto, inclusive, já começa a chegar a outras unidades por meio de convites recebidos por Bia Barreto para apresentar a experiência em diferentes espaços educacionais. Segundo ela, o objetivo é ampliar o alcance da iniciativa e fortalecer práticas pedagógicas antirracistas dentro e fora da sala de aula.

Carregando comentários...

Regras: Seu comentário será analisado antes de publicado. Não são permitidos links, ofensas, discurso de ódio ou spam. Comentários abertos por 30 dias.

Encontrou algum erro? Entre em contato
Sobre o autor Lúcia L.F

Lúcia L.F. é co-fundadora e Diretora de Parcerias do BahiaBR.com. É uma empreendedora de mídia digital com mais de uma década de experiência, atuando em portais de notícias na Bahia desde 2011.