A Fundação Cidade Mãe atende, em média, 2 mil crianças e adolescentes por ano em Salvador por meio de atividades socioeducativas, culturais e esportivas realizadas no contraturno escolar. A estratégia central é ocupar o tempo fora da escola com oficinas de artes plásticas, música, capoeira, dança, teatro e informática para prevenir situações de risco entre jovens em situação de vulnerabilidade na capital baiana.
As informações foram divulgadas pela própria Fundação. A instituição, que existe há 31 anos, atua em duas frentes principais. A primeira é a prevenção de situações de risco ou do agravamento delas. A segunda é destinada aos casos em que os direitos de crianças e adolescentes já foram violados, quando é necessário o afastamento temporário do convívio familiar.
As atividades são oferecidas em sete Centros de Convivência Socioassistencial distribuídos por diferentes regiões de Salvador. Segundo a chefe de gabinete da Fundação, Aline Gomes, manter os jovens ocupados enquanto não estão na escola é parte essencial da proteção.
“A criança está estudando em um turno e, no outro, está aqui com a gente. É justamente para garantir a proteção e evitar que ela fique vulnerável a riscos”, afirmou.
Arte como ferramenta pedagógica
Na visão da Fundação, a produção artística é uma das formas de trabalhar questões sociais com os alunos. O processo não se resume a entregar tela e tinta. Antes de produzir, os educadores apresentam e discutem o tema que será transformado em trabalho artístico. A abordagem busca desenvolver consciência, pensamento crítico e autoestima.
Aline Gomes explica que o público atendido costuma chegar desacreditado. Segundo ela, muitos não conhecem as próprias habilidades e potencialidades e acham que a vida está fadada a ser como as referências que têm fora da instituição. Os temas trabalhados incluem questões relacionadas ao meio ambiente, à capital baiana e às brincadeiras tradicionais.
Parte dessa produção pode ser vista na mostra Arte e Sustentabilidade, em exposição na Galeria Espaço Cultural, localizada na própria Fundação, no Engenho Velho de Brotas. A exposição coletiva reúne trabalhos de dez artistas, incluindo obras de convidados e produções de alunos de outras unidades. A galeria recebe visitas de grupos escolares, mas também está aberta ao público em geral, com o objetivo de aproximar a sociedade do trabalho desenvolvido pela instituição.
Impacto além da sala de aula
Para o educador de artes Gilson Cardoso, o trabalho artístico não deve ser visto apenas como preparação para quem pretende seguir carreira na área. A atividade, segundo ele, interfere na forma como os alunos pensam e observam o mundo. Ele cita ex-alunos que seguiram caminhos diversos, incluindo um que hoje é policial e atribui à Fundação a mudança em sua trajetória.
Nas oficinas, os alunos têm acesso a telas e tintas, mas também podem utilizar objetos que seriam descartados. A prática é outro elemento do processo de aprendizagem. Gilson afirma que alguns alunos chegam com facilidade para desenhar, enquanto outros desenvolvem as habilidades com o exercício contínuo. Na avaliação dele, a arte interfere no pensar e no olhar, e não se limita a produzir um quadro para pendurar na parede.
Saori Amorim, de 8 anos, é uma das educandas da Fundação. Ela participa há dois meses das atividades no turno da tarde, com preferência pela informática, mas também frequenta aulas de dança, inglês e artes plásticas. Entre os trabalhos que já produziu estão desenhos sobre a paz e o meio ambiente.