Gustavo Feliciano assume o Turismo prometendo “turismo do povo” e inclusão. A cerimônia, porém, revelou um ministro filho da política tradicional e de um delicado acordo partidário no Planalto.
O Palácio do Planalto foi palco, nesta terça (23), de mais uma troca de ministros. Sob os holofotes, Gustavo Feliciano vestiu a camisa do Turismo e repetiu um mantra que soa bem aos ouvidos de quem vive de sol e mar: o turismo no país precisa ser para o povo. “Não pode ser só de rico”, disparou, definindo sua missão como promover acesso a quem ganha menos.
Foi um discurso de impacto. Ele falou em “turismo do povo, pelo povo e para o povo”, em geração de alegria, emprego e renda. Afirmou que ver gente comum viajando é a verdadeira medida do progresso. A fala é bonita, cheia de ideais — e sabe bem em um estado como a Bahia, onde o setor respira pelas praias e pela cultura. Mas será que é só discurso?
Porque a política estava ali, respirando no mesmo palco.
Feliciano não poupou elogios ao seu principal padrinho: o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a quem chamou de “o maior líder do meu estado”. O novo ministro é uma indicação clara do União Brasil, partido que retoma um assento no primeiro escalão após um período de afastamento do governo Lula. O gesto foi lido como um aceno de Lula para garantir governabilidade no Congresso.
Hugo Motta, presente e agradecido, prometeu que a Câmara ajudará a gestão “com recursos e ações”. O clima era de reconciliação. A nomeação, no fundo, foi menos sobre turismo e mais sobre matemática política.
E quem é o homem no centro disso tudo?
Natural de Campina Grande, Feliciano tem trânsito na área — foi secretário de Turismo da Paraíba. Mas seu currículo é profundamente político: é filho do deputado federal Damião Feliciano e da vice-governadora paraibana, Lígia Feliciano. Ele assume no lugar de Celso Sabino, que foi expulso do União Brasil por não obedecer à ordem de deixar o cargo.
A saída de Sabino e a entrada de Feliciano foram costuradas em reunião com a ministra Gleisi Hoffmann. É a dança das cadeiras em sua essência. Enquanto isso, a população espera pelo tal turismo acessível.
A promessa de um turismo mais inclusivo é urgente e necessária. No entanto, o ministro que a profere chega ao cargo não por um projeto técnico revolucionário, mas por um acordo de cúpula. Sua capacidade de transformar o discurso empolgante em política concreta — que de fato leve famílias de baixa renda a conhecerem os cartões-postais do país — é o que vai definir seu legado.
O povo já trabalha muito, como ele mesmo disse. Agora, espera que o trabalho no ministério vá além dos agradecimentos protocolares e que, diferentemente de outros projetos barrados recentemente, esta promessa de inclusão siga em frente. Que, ao contrário de vetos que geram incerteza, gere confiança e resultados práticos para a população.
