✦ Resumo

Estudo da Unirio revela que mexilhões consomem microplásticos de forma indiscriminada ao filtrar água do mar, podendo transferir essas partículas aos humanos que os consomem.

mexilhões no prato
Imagem de Harry Fabel por Pixabay

Mexilhões podem ser uma porta de entrada de microplástico no corpo humano. É o que sugere um estudo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), publicado nesta segunda-feira (15) na revista científica Ocean and Coastal Research. Os moluscos, muito consumidos na culinária brasileira, se alimentam filtrando a água do mar — e não conseguem distinguir microalgas de fragmentos de plástico.

O alerta vem da bióloga marinha e professora Raquel de Almeida Ferrando Neves, coautora da pesquisa. “A gente conseguiu identificar que eles não têm percepção, não conseguem diferenciar partículas naturais e partículas de plástico”, explicou à Agência Brasil. No experimento, os mexilhões foram divididos em três grupos e expostos a soluções com microalgas, microplásticos e uma mistura de ambos. O resultado: índices de consumo quase idênticos — 48% das microalgas e 52% das esferas de plástico sobraram no tanque da mistura. Traduzindo: o bicho não faz a menor ideia do que está engolindo.

Como o microplástico chega ao prato do brasileiro

Os mexilhões da espécie Perna perna, conhecidos como mexilhão marrom, foram coletados na Praia Vermelha, zona sul do Rio de Janeiro. No laboratório, os pesquisadores simularam condições ambientais para testar a filtragem dos moluscos. A conclusão é direta: eles consomem os materiais de forma indiscriminada. Na prática, quem paga a conta é o consumidor.

Para a professora Raquel Neves, do Departamento de Ecologia e Recursos Marinhos da Unirio, o risco à saúde humana é real. “Isso, para a saúde humana, é sempre muito arriscado e perigoso, porque esses mexilhões são filtradores, e organismos filtradores acumulam contaminantes químicos”, detalha. A bióloga, vencedora do Prêmio Para Mulheres na Ciência 2023, concedido pelo Grupo L’Oréal em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a Unesco, alerta que o grau de exposição depende da dieta. Consumo esporádico? Risco menor. Frequência alta? Exposição maior.

Cozinhar não resolve o problema

E aqui mora o problema: diferentemente de parasitas e microrganismos patogênicos, o cozimento não elimina os contaminantes. “No caso de biotoxinas, microplásticos, metais e contaminantes químicos, o cozimento não reduz os níveis de contaminação dos mexilhões”, afirma Neves. A ficha caiu tarde para quem achava que uma boa fervura resolvia tudo.

O estudo, publicado pela Ocean and Coastal Research — periódico brasileiro editado pelo Instituto Oceanográfico da USP —, foi divulgado em parceria com a Agência Bori. A pesquisa soma-se a outras evidências alarmantes: no fim de maio, a Agência Brasil noticiou que microplásticos foram encontrados em 93% de uma amostra de peixes no litoral do Paraná. Outro estudo brasileiro localizou fragmentos em placentas e cordões umbilicais.

Poluição que vem de longe

Os microplásticos são partículas resultantes da degradação de plásticos maiores — embalagens, garrafas, pneus, tecidos e tintas — sob ação do tempo e do sol. A Organização Mundial da Saúde reconhece o problema e pede mais pesquisas sobre os efeitos na saúde humana. A professora Neves reforça que, embora o experimento tenha sido feito no Rio de Janeiro, o comportamento dos mexilhões é padronizado: “Essa espécie ocorre em qualquer lugar do litoral. Padrão de alimentação, padrão de taxa de filtração, isso não costuma variar de acordo com a localidade”.

O que fazer? Os pesquisadores da Unirio defendem ações práticas para cortar a poluição na origem. Entre as soluções apontadas estão políticas públicas para reduzir o despejo de resíduos no mar e restringir massivamente a circulação de plásticos descartáveis. A equipe também sugere o monitoramento científico constante das áreas de maricultura — onde organismos marinhos são cultivados — como caminho viável para garantir a segurança do consumo de frutos do mar.

O fato é que, enquanto o plástico continuar virando alimento no oceano, o risco chega à mesa sem aviso prévio.

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Sobre o autor Lúcia L.F

Lúcia L.F. é co-fundadora e Diretora de Parcerias do BahiaBR.com. É uma empreendedora de mídia digital com mais de uma década de experiência, atuando em portais de notícias na Bahia desde 2011.