A Jornada da Fauna Silvestre levou informações sobre criação irregular, caça e tráfico de animais silvestres a 544 estudantes de quatro escolas municipais de Salvador e a cerca de 200 pessoas na Praça da Revolução, em Periperi. A iniciativa foi realizada entre os dias 21 e 26 de setembro e terminou com a entrega voluntária de dois jabutis.
As atividades reuniram a Guarda Civil Municipal de Salvador (GCM), por meio do Grupo Especial de Proteção Ambiental (Gepa), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) e a Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
Nas escolas, a programação apresentou o percurso de um animal silvestre desde o resgate até a possível devolução à natureza e abordou biodiversidade, tráfico, cativeiro ilegal, zoonoses, atendimento veterinário e reabilitação. Foram quatro dias de atividades nas escolas municipais Anfilófio de Carvalho, Almirante Ernesto Mourão Sá, Mirantes de Periperi e Periperi, com um circuito pedagógico e sensorial para os alunos.
Orientação na praça e entrega voluntária
Nos dias 25 e 26, a Jornada chegou à Praça da Revolução, onde aproximadamente 200 pessoas receberam orientações sobre os riscos de manter animais silvestres em ambiente doméstico e a importância dessas espécies para o equilíbrio dos ecossistemas. Foi nesse espaço que dois jabutis foram entregues voluntariamente.
A entrega voluntária permite que pessoas que mantêm animais silvestres sem autorização procurem os órgãos ambientais para encaminhá-los ao tratamento adequado, sem as penalidades inerentes à apreensão realizada em uma fiscalização. Depois disso, os animais são encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), onde passam por avaliação, cuidados veterinários e reabilitação.
À frente do Gepa há 12 anos, o coordenador Robson Pires explica que a iniciativa busca mostrar a crianças e adultos as consequências ambientais e sanitárias da criação irregular. Segundo ele, a prática é crime ambiental, pode favorecer a transmissão de doenças e provoca impactos na formação das florestas e na conservação de lagos e rios.
“Levamos conhecimento sobre a importância de não manter animais silvestres dentro de casa. Além de ser crime ambiental, essa prática pode favorecer a transmissão de doenças e provocar impactos na formação das florestas e na conservação de lagos e rios. Esses animais são fundamentais para a preservação dos nossos biomas e ecossistemas”, afirma.
Segundo o coordenador, a realização da atividade em uma área de grande circulação também aproxima o conteúdo do cotidiano da população. Robson lembra que Salvador abriga importantes áreas naturais, como os parques de São Bartolomeu, das Dunas, de Pituaçu e da Cidade.
Riscos sanitários e manejo inadequado
Durante a ação, estudantes de Medicina Veterinária e Biologia da Ufba utilizaram exemplares taxidermizados de mico, papagaio e jabuti para explicar as características das espécies, as necessidades de cada animal e os problemas provocados pelo manejo inadequado.
O professor Ianei de Oliveira Carneiro, da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia da Ufba, ressalta que a conscientização nas escolas é fundamental para ampliar o alcance da campanha. Ele afirma que a proposta não era apenas promover a entrega dos animais, mas sensibilizar as pessoas sobre a importância de mantê-los livres, já que ainda existe muito desconhecimento sobre o que são animais silvestres e quais cuidados eles exigem.
Ianei reitera que o contato inadequado também oferece riscos à saúde humana. Micos e saguis, por exemplo, podem transmitir raiva, enquanto os papagaios podem carregar a bactéria responsável pela psitacose, infecção respiratória transmitida de aves para humanos. Os próprios animais ficam vulneráveis a infecções, alimentação inadequada, estresse e problemas decorrentes da falta de espaço e de exposição correta à luz solar.
“Mais de 90% dos animais que recebemos no setor de animais silvestres e exóticos da Ufba chegam por causa de manejo inadequado. Isso mostra que as pessoas não conhecem as necessidades dessas espécies e, mesmo sem intenção, acabam provocando sofrimento”, enfatiza o professor.
Ampliação das ações educativas
O chefe do Cetas do Ibama em Salvador, Alcio Santos, ressalta a necessidade de ampliar as ações educativas na capital baiana. Segundo ele, Salvador ainda carece de informações sobre a fauna silvestre e sobre a importância de manter esses animais livres. As atividades começaram pelas escolas de Periperi e Paripe, mas a proposta é levar o projeto para outras áreas da cidade.
A arte-educadora Isabel Leiro, de 54 anos, nasceu e cresceu em Itacaranha e conheceu a iniciativa ao passar pela Praça da Revolução. Ela afirmou que pretende levar o aprendizado para os alunos com quem trabalha, porque a região possui uma riqueza muito grande, como o Parque São Bartolomeu, mas poucas pessoas conhecem esse patrimônio.
Como acionar o resgate
A população pode acionar o serviço de resgate de animais silvestres por meio do Grupo Especial de Proteção Ambiental da GCM, pelos telefones 3202-5323 ou 3202-5343, ou ainda pelo Cetas, no número 99661-3998.