E se o dinheiro da passagem voltasse para o bolso do trabalhador? Pesquisadores de três universidades públicas apresentam um modelo que troca o vale por um fundo empresarial para bancar a gratuidade no transporte.
Piatã, um bairro que respira o futuro, se prepara para uma transformação concreta. A promessa não é pequena: um parque tecnológico para atrair as mentes mais brilhantes e as empresas mais inovadoras do país.
O projeto, orçado em R$ 50 milhões, é mais do que tijolos e cimento. É a aposta da gestão municipal em um futuro onde a economia baiana pulsa no ritmo das startups. A expectativa é que as obras, com início no próximo semestre, gerem cerca de 500 empregos diretos em dois anos.
“Esta é uma iniciativa histórica para a nossa cidade”, afirmou o prefeito, ecoando um sentimento de otimismo cauteloso. Mas a questão que fica é: será que a infraestrutura e a qualificação profissional acompanharão a velocidade do concreto?
Se tudo der certo, Salvador pode finalmente ter seu próprio “Vale do Silício” com sotaque baiano. Um movimento que, se bem-sucedido, pode redefinir o futuro econômico da capital.
A proposta, assinada por pesquisadores da UnB, UFMG e USP, é simples na teoria e ousada na prática: extinguir o sistema de vale-transporte e criar um fundo financiado por empresas. Esse fundo bancaria a tarifa zero universal em todas as 706 cidades brasileiras com mais de 50 mil habitantes.
A mudança é estrutural. Hoje, o trabalhador paga 6% do seu salário pelo vale. No novo modelo, a empresa deixaria de pagar o benefício individual e contribuiria para um fundo coletivo. A regra é progressiva: apenas estabelecimentos com 10 ou mais funcionários pagariam, o que isentaria 81,5% das empresas no país. “Um estabelecimento com 10 funcionários irá pagar a contribuição no valor de um. Com 20, pagará o valor referente a 11”, detalha o professor Thiago Trindade, da UnB.
Os Números que Sustentam a Ousadia
O cálculo dos pesquisadores é que essa contribuição, estimada em R$ 255 por mês por funcionador, geraria um montante de R$ 80 bilhões anuais. Um valor que não só cobre os atuais R$ 65 bilhões de custo do transporte público, mas também bancaria a expansão da gratuidade para as 706 cidades, beneficiando 124 milhões de pessoas.
— O mais revolucionário: a proposta se sustenta sem um real do governo federal e sem criar novos impostos. “A gente tem como fazer um programa de tarifa zero sem onerar o orçamento da União”, defende Trindade.
Para Além do Bolso: O Impacto na Vida Real
Mas a tarifa zero não é só uma equação financeira. É social. O estudo aponta um efeito dominó positivo. O primeiro e mais imediato: o dinheiro que deixa de ser gasto com passagem — algo como R$ 2 bilhões só no Distrito Federal — injetado diretamente na economia local, aquecendo comércios e serviços.
E tem mais. A gratuidade pode ser um remédio amargo para problemas crônicos. Ao incentivar o uso do transporte coletivo, tira veículos das ruas e, consequentemente, reduz acidentes de trânsito. Um dado do Ipea dá a dimensão do problema: as motos foram responsáveis por quase 40% das mortes no trânsito em 2023, consumindo mais de R$ 270 milhões em despesas hospitalares públicas.
“A gente vai aumentar a vida útil da população brasileira. As pessoas vão trabalhar mais tempo, produzir mais riqueza”, argumenta o pesquisador. Para ele, o verdadeiro custo é a inércia. “Sai caro para o país é não fazer política social”.
O Plano e o Desafio Político
A equipe propõe um projeto-piloto em regiões metropolitanas já em 2026. Mas a viabilidade vai além dos números. O pesquisador da UnB reconhece: é preciso uma campanha de sensibilização para convencer a sociedade e o Congresso.
