✦ Resumo

Assessor de Lula alerta que defesa é o maior gargalo da política externa brasileira, citando ação militar dos EUA na Venezuela e escalada global de conflitos.

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Foto de Ivars Utināns na Unsplash

A área de defesa se consolida como um dos principais gargalos da política externa brasileira nos próximos anos. O alerta foi feito pelo assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial da Presidência da República, Audo Faleiro, durante a 2ª Conferência Nacional Política Externa e Inserção Internacional do Brasil. O evento ocorreu nesta semana na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo do Campo (SP). A avaliação considera a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e o cenário global de escalada de conflitos.

“A percepção de vulnerabilidade com a ação militar americana, sobretudo na região, ela colocou, eu acho, uma outra urgência para gente lidar com esse desafio”, afirmou Faleiro. Ele ressalvou, no entanto, que não enxerga ameaça imediata contra as reservas de petróleo ou o programa nuclear brasileiros. “Eu não vejo hoje uma ameaça objetiva para o Brasil, como aconteceu na Venezuela, essa ação militar que foi efetivamente para controlar as reservas de petróleo da Venezuela”, completou.

O dilema do investimento em defesa

O assessor destacou que o país precisará decidir se investirá ou não no setor. “A gente convive com um dilema permanente na sociedade brasileira, porque alguns acham que o Brasil é um país pacífico, então ninguém vai nos atacar, e não precisaríamos de defesa. Outros acham que não vale a pena investir em defesa, porque a assimetria militar é tão grande que nada que nós possamos investir vai reduzir essa distância”, disse. O fato é que conflitos assimétricos, como o entre EUA e Irã, apontam um caminho. “Nem sempre o mais forte vence, desde que você tenha uma capacidade de dissuasão bem feita. Acho fundamental pensar a nossa situação em matéria de defesa, o Brasil é muito vulnerável, isso é evidente”, ressaltou.

Cinco desafios adicionais até 2030

Além da defesa, Faleiro elencou outras cinco prioridades para a política externa brasileira até 2030: minerais críticos e terras raras, soberania digital, crime organizado transnacional, integração regional e integração com países africanos. Sobre minerais críticos, ele avaliou que o arcabouço regulatório está defasado. “Acho que essa é uma área em que nós vamos precisar de muito investimento no desenvolvimento de estratégias para que o Brasil possa se assenhorar dessa condição especial que ele tem, de ser o segundo maior detentor de minerais críticos”, afirmou.

Crime organizado e soberania digital

Em relação ao crime organizado transnacional, o assessor disse que o país precisa “sair da defensiva” e propor uma pauta regional de combate. Ele citou a eleição de um delegado da Polícia Federal para a direção-geral da Interpol como um passo importante. Já sobre soberania digital, a avaliação foi direta: “O Brasil ficou fora do mundo quando esse tema evoluiu mais rapidamente. Nós chegamos, tínhamos perdido o bonde dessa discussão e agora nós vamos precisar de grande investimento nessa frente também”.

Integração regional e África

Faleiro apontou dois entraves para a integração com América Latina e Caribe: a eleição de Javier Milei na Argentina e o resultado do processo eleitoral na Venezuela em 2024. “Criou uma situação de veto cruzado na região e levou à paralisia da nossa tentativa de reerguer a Unasul e a própria Celac”, explicou. Sobre a África, o cenário é de atraso. “Agora depois de dez anos de abandono à África, nós encontramos a África povoada de outros atores, com instrumentos muito mais eficazes para fazer política externa. Eu acho que a gente vai precisar repensar vários desses instrumentos que nós abandonamos, sobretudo o tema da cooperação”.

Brics: expansão foi um erro, avalia assessor

Audo Faleiro também comentou sobre o bloco dos Brics. Para ele, o aumento do número de membros, em 2023, foi um equívoco. “Hoje os Brics estão paralisados, porque existe conflito entre países do grupo [Irã e Emirados Árabes Unidos], agredindo-se militarmente. Vocês não viram até hoje uma declaração dos Brics sobre o conflito no Oriente Médio, porque não é possível ter consenso dentro do grupo. Então, eu acho que isso foi um equívoco, não sei se é possível de reverter, provavelmente não”, concluiu. Quem paga a conta é o cidadão, que vê o país vulnerável em múltiplas frentes estratégicas.

O posicionamento do governo brasileiro, segundo o assessor, será o de fazer o que for possível diante da fragmentação regional. A conferência na UFABC reuniu especialistas e diplomatas para debater os rumos da inserção internacional do Brasil nos próximos anos. A expectativa é que os temas levantados por Faleiro orientem as próximas diretrizes da política externa nacional.

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Sobre o autor P. Fonseca

P. Fonseca é o fundador e editor-chefe do BahiaBR.com. Com mais de 20 anos de experiência em publicação digital e criação de conteúdo — desde os primórdios de plataformas como Blogger, MySpace e Orkut — P.