O Centro Histórico de Salvador passa a contar, a partir desta sexta-feira (18), com uma sala de espetáculos de aproximadamente 150 lugares no Distrito Criativo do Comércio. A Casa de Espetáculos Letieres Leite foi inaugurada pela Prefeitura de Salvador e recebe apresentações musicais e teatrais, com estrutura de som imersivo, transmissão por fibra óptica, camarins, área técnica e recursos de acessibilidade universal.
O equipamento integra um complexo cultural instalado no mesmo quarteirão, formado também pela Cidade da Música da Bahia, em funcionamento desde 2021, e pela Escola de Música Letieres Leite, com inauguração prevista para o primeiro semestre de 2027. Os três espaços terão funcionamento articulado, reunindo memória, formação e circulação artística.
A gestão da Casa de Espetáculos e da Escola de Música ficará a cargo da Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI), em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), seguindo o modelo já adotado na Cidade da Música da Bahia. A proposta é que os três equipamentos operem de forma integrada, tanto pela proximidade física quanto pela concepção: a Cidade da Música preserva e apresenta a memória musical da Bahia, a Escola de Música será voltada à formação e a Casa de Espetáculos funcionará como espaço de apresentação e circulação da produção artística.
Além de receber eventos, o espaço terá papel na formação de novos artistas. A produção desenvolvida por alunos e professores da futura Escola de Música Letieres Leite poderá ser apresentada ao público no próprio equipamento, criando uma conexão entre formação, produção artística e circulação. A sala também está preparada para receber atividades ligadas à produção e circulação cultural, não apenas espetáculos.
A programação de inauguração começa neste sábado (19), às 18h, com o Encontro de Cantautoras, que reúne Lívia Nery, Manuela Rodrigues e Neila Kadhi em repertórios autorais. No domingo (20), às 14h, será apresentado o espetáculo infantil Fala Ibeji, que aborda infância e ancestralidade a partir de elementos da cultura de matriz africana, com formação de plateia para famílias das comunidades do entorno, incluindo Gamboa, Solar do Unhão e Calabar. A abertura, nesta sexta-feira, contou com apresentação do Coletivo Rumpilezzinho, formado por sopros, percussão, instrumentos harmônicos e cordas, com participação especial do cantor Lazzo Matumbi. O grupo nasceu do Laboratório Musical de Jovens, programa educativo desenvolvido por Letieres Leite.
O equipamento foi implantado em um casarão do século XIX que se encontrava em ruínas e abandonado. O projeto de restauro foi elaborado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), responsável por conciliar a preservação dos elementos históricos com as exigências técnicas de um teatro contemporâneo. A presidente da fundação, Tânia Scofield, explicou que o imóvel apresentava poucas estruturas preservadas.
O que nós encontramos aqui foi uma ruína, havia apenas uma parede interna e as paredes externas, feitas de adobe e pedra, ainda do Século XIX
Scofield afirmou que o projeto adequou o espaço a uma Casa de Espetáculos, conciliando a arquitetura do século XIX com as exigências de um teatro contemporâneo, e classificou essa adequação entre construção histórica e equipamento moderno como o que torna o projeto relevante.
Política de recuperação do Centro Histórico e legado do maestro
A Casa de Espetáculos e a Escola de Música fazem parte da política de Desenvolvimento Sustentável para o Centro Histórico, iniciada pela Prefeitura em 2014. A iniciativa prevê a recuperação de casarões que estavam em situação de abandono ou ruína e sua transformação em equipamentos com novo uso social e cultural. No entorno da Praça Maria Felipa, esse ecossistema já reúne a Casa das Histórias de Salvador, o Arquivo Público Municipal, a Galeria Mercado e o Mercado Modelo. No Pelourinho, está localizada a Casa do Carnaval. O Comércio também deverá receber futuramente a Casa de Exposição da Maquete de Salvador, ao lado do Elevador Lacerda.
O nome do equipamento homenageia o maestro Letieres Leite, referência da música baiana e brasileira e criador da Orkestra Rumpilezz, falecido em 2020. A concepção da Casa está associada à trajetória do músico, que uniu pesquisa, educação e criação artística a partir das matrizes africanas presentes na música baiana. Letieres foi também criador do Universo Percussivo Baiano (UPB), método de ensino e pesquisa musical fundamentado nas matrizes africanas da música da Bahia e nas influências da diáspora negra sobre a cultura musical brasileira e mundial. Ao longo da carreira, atuou na formação de novos músicos, inclusive por meio do projeto Rumpilezzinho, que se apresentou na inauguração.
Líris Letieres, irmã do maestro, destacou a importância de manter o seu legado e afirmou que ele lutou pela música afro-diaspórica, estudou, pesquisou e trouxe o rigor da música ancestral, deixando registro como educador de meninos e meninas baianos por meio do Rumpilezzinho. Ela disse estar emocionada ao ver dois equipamentos levarem o nome do irmão e da música matricial.
O prefeito Bruno Reis afirmou que o equipamento foi criado para valorizar o potencial da economia criativa de Salvador e que o objetivo é estimular e incrementar a renda de todos que atuam no setor. Ele também defendeu que a Casa receba apresentações de movimentos culturais e coletivos dos bairros da cidade.
A vice-prefeita Ana Paula Matos disse que o equipamento seguirá o trabalho de educação musical de Letieres Leite e fortalecerá o Comércio como polo cultural, mantendo vivo o legado do maestro. Segundo ela, a recuperação dos imóveis históricos também está relacionada à dimensão social da política de sustentabilidade, que respeita a cultura viva da cidade.
O titular da Secult, Alexandre Reis, afirmou que a Casa consolida o Distrito Criativo do Comércio e reafirma o compromisso da gestão municipal com a cultura e com a região, garantindo palco para a produção artística formada chegar ao público. Para Rodrigo Rossi, diretor e chefe da OEI no Brasil, Salvador já é referência mundial em música e o desafio é transformar essa potência cultural em formação, oportunidades e circulação para novas gerações, passo que a Casa de Espetáculos ajuda a dar ao aproximar artistas e público.