✦ Resumo

Atleta paralímpica de Camaçari busca apoio financeiro para adquirir cadeira esportiva profissional e se dedicar ao sonho de competir em alto nível.

Ana Caroline, atleta paralímpica de Camaçari, sorri em sua cadeira de rodas, representando determinação no esporte adaptado d

A atleta paralímpica Ana Caroline Lima, de 24 anos, moradora do distrito de Vila de Abrantes, em Camaçari, enfrenta um novo desafio fora das quadras. Após superar um osteossarcoma que levou à amputação de sua perna esquerda aos 11 anos e se destacar no basquete em cadeiras de rodas, ela agora busca recursos para adquirir uma cadeira de rodas esportiva profissional e garantir sua dedicação integral ao esporte. Sem auxílio governamental, Caroline depende do seguro-desemprego após sair de um clube do Rio de Janeiro e sonha com estabilidade financeira para se concentrar nos treinos e almejar competições de alto nível, incluindo as Paralimpíadas.

O diagnóstico de câncer ósseo na infância mudou completamente a vida da jovem, que sempre foi ligada ao esporte. O tratamento incluiu quimioterapia e a colocação de uma endoprótese no joelho. Mas foi a própria Caroline quem, após pesquisar, tomou a decisão pela amputação do membro, buscando mais qualidade de vida. Anos depois, ela encontrou no Futebol de Amputados do Esporte Clube Vitória, gerido pela Associação Baiana de Desporto Adaptado (ABDA), uma nova porta. Foi ali que conheceu a técnica Dilma Mendes, que viu seu potencial.

Acontece que o desgaste no joelho a obrigou a abandonar o futebol. A história, no entanto, não parou aí. Durante uma entrevista de emprego, alguém mencionou o basquete em cadeiras de rodas da Associação de Atletas Baianos de Necessidades Especiais (AABANE), em Salvador. “Fiquei receosa no início, mas decidi ir a um treino. No início parecia impossível, mas aceitei o desafio”, relatou a atleta ao Destaque1. A modalidade se tornou sua nova paixão e, em 2024, ela competiu no Campeonato Baiano e no Campeonato Brasileiro em São Paulo.

 

Do Rio de Janeiro ao Sonho Paralímpico

Os resultados a motivaram a se dedicar completamente. Caroline passou cerca de um ano treinando de segunda a sexta no Rio de Janeiro. Se em 2024 ela marcou apenas uma cesta em competições, no ano seguinte esse número explodiu para 22. O saldo confirmou que ela estava no caminho certo. Mas a busca por voos maiores exigiu uma mudança. Ao sair do clube carioca, a atleta perdeu um equipamento fundamental: sua cadeira de rodas esportiva.

O equipamento profissional, com medidas e estrutura específicas, é essencial para mobilidade, velocidade e segurança durante os jogos, simulando os movimentos do basquete convencional. Sem essa ferramenta de trabalho e sem um auxílio financeiro que lhe permita focar apenas nos treinos, a trajetória de superação de Ana Caroline esbarra em um obstáculo concreto que ameaça adiar seu sonho paralímpico.

Entrevista com Ana Caroline Lima

Conheça Ana Caroline Lima, atleta paralímpica de basquete em cadeiras de rodas e moradora de Vila de Abrantes, em Camaçari. Sua trajetória de superação frente ao câncer e sua transição bem-sucedida para o esporte de alto rendimento a tornam a voz central para discutir os desafios dos atletas paralímpicos na Bahia, especialmente no que diz respeito ao acesso a equipamentos e patrocínio.

BahiaBR — O que te motivou a tomar a decisão pela amputação após a cura inicial do câncer e como o esporte entrou na sua vida depois disso?

Mesmo após a cura do câncer, eu não me sentia bem com a endoprótese. Eram limitações constantes, dores e uma sensação de não estar vivendo plenamente. Comecei a pesquisar sobre a vida de pessoas amputadas e percebi que poderia ter mais qualidade de vida assim e vir a amputação como uma forma de recomeço. Depois disso, o esporte entrou para a minha vida de forma inesperada. Conheci o fut7 de amputados através de um amigo e aquilo reacendeu algo dentro de mim.

BahiaBR — Qual é o maior desafio logístico e financeiro que um atleta paralímpico da Bahia, como você, enfrenta para se manter no alto rendimento?

O maior desafio é a falta de apoio financeiro e estrutura. Muitas vezes precisamos arcar sozinhos com custos de viagens, alimentação, equipamentos e treinos. Na Bahia, os poucos clubes de basquete em cadeira de rodas não têm reconhecimento, o que dificulta o crescimento do esporte.

Por isso, passei um período no clube do Rio de Janeiro para ter acesso a uma estrutura adequada, e Ainda assim, sem incentivo contínuo, fica difícil manter o foco, pois preciso trabalhar para me sustentar.

Conciliar o trabalho com a rotina de atleta é muito difícil, pois as empresas não enxergam você como atleta, mas apenas como um funcionário. Superar isso exige muito esforço, disciplina e resistência emocional. Muitas vezes pesa, porque o alto rendimento exige dedicação total — treinos intensos, foco na quadra e na academia, além de uma alimentação saudável e equilibrada.

BahiaBR — Como a falta de uma cadeira de rodas esportiva própria impacta diretamente seu desempenho nos treinos e sua perspectiva para competições futuras?

Impacta totalmente. A cadeira esportiva é como se fosse uma extensão do nosso corpo dentro da quadra. Quando você não tem uma cadeira própria, adaptada ao seu corpo e estilo de jogo, tudo fica mais difícil: mobilidade, velocidade, equilíbrio e até a confiança durante as jogadas.

Treinar com uma cadeira que não é adequada limita minha evolução e me impede de alcançar meu melhor desempenho. Para competir em alto nível, ter o equipamento certo não é um luxo — é uma necessidade.

BahiaBR — Quais são seus próximos passos e metas competitivas imediatas, e que tipo de apoio você busca da iniciativa privada ou de políticas públicas para alcançá-las?

Meus próximos passos são continuar evoluindo tecnicamente, ganhar mais experiência em competições ao longo do ano e buscar uma vaga na seleção principal. Estou em processo de mudança de clube, o que vai me permitir participar de mais competições e adquirir ainda mais experiência. Minha próxima competição será em maio, em Araguari-MG, onde disputarei a Supercopa Feminina.

O apoio que busco é principalmente investimento em estrutura, como uma cadeira esportiva própria, essencial para o meu desenvolvimento, além de apoio financeiro para que eu possa me dedicar integralmente ao esporte e alcançar o alto rendimento. A iniciativa privada e as políticas públicas têm um papel fundamental nesse processo, ajudando atletas como eu a transformarem potencial em resultados.

BahiaBR — Que mensagem você deixa para outros jovens com deficiência na Bahia que sonham com o esporte, mas veem muitos obstáculos pela frente?

Eu diria para não desistirem. Eu sei que não é fácil, os obstáculos são muitos, mas é possível. O esporte transforma vidas, ele me devolveu sonhos, autoestima e propósito.
Mesmo quando tudo parecer difícil, continue. Se permita tentar, errar, aprender e evoluir.

E principalmente: nunca deixe que suas limitações definam até onde você pode chegar. Se hoje eu estou aqui, é porque um dia eu decidi não parar e você também pode chegar lá.

A conta chegou. Para seguir adiante, Ana Caroline precisa superar mais esta barreira. Ela mantém contato aberto para possíveis apoios através do telefone (71) 9 9958-2382 e pelo seu perfil no Instagram. Enquanto isso, a rotina puxada de treinos e a incerteza financeira seguem como adversários diários. A pergunta que fica é quantos talentos paralímpicos baianos, com histórias similares de resiliência, ainda não conseguem decolar por falta da estrutura mínima.

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Sobre o autor P. Fonseca

P. Fonseca é o fundador e editor-chefe do BahiaBR.com. Com mais de 20 anos de experiência em publicação digital e criação de conteúdo — desde os primórdios de plataformas como Blogger, MySpace e Orkut — P.