Em discurso no G20, o presidente Lula defendeu que países donos de minérios raros não podem ser meros exportadores. A batalha pela soberania, disse ele, se dá no valor agregado e no controle da inteligência artificial.
A disputa global pelo futuro — quem dita as regras, quem fica com os lucros e quem é reduzido a mero fornecedor — ganhou contornos nítidos no palco do G20, em Joanesburgo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi direto ao ponto: a soberania no século XXI não se mede apenas pela riqueza enterrada no solo, mas pela capacidade de transformá-la em conhecimento e tecnologia.
O cerne do discurso foi a governança sobre os minerais críticos — lítio, cobalto, terras raras —, a espinha dorsal da transição energética. Esses elementos, essenciais para baterias, turbinas eólicas e chips, colocam nações como o Brasil e a África do Sul em uma encruzilhada histórica.
“Os países com grande concentração de reservas não podem ser vistos como meros fornecedores, enquanto seguem à margem da inovação”, afirmou Lula, em um recado claro às potências tecnológicas. — O que está em jogo não é quem detém os recursos, mas quem controla o valor que deles derivam.
O Brasil, dono de cerca de 10% das reservas mundiais, sente na pele os dois lados dessa moeda. A corrida por esses minérios já gera conflitos em novas frentes de exploração e, paradoxalmente, pode até acelerar a crise climática. A saída, segundo o presidente, está em políticas que transformem recursos brutos em benefícios reais para a população.
Da mina ao algoritmo: o fantasma do colonialismo digital
A lógica se estende à inteligência artificial. Lula a enxerga como uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento, mas soa o alarme sobre seu potencial de exclusão. “Quando poucos controlam os algoritmos e os dados, a inovação gera exclusão”, alertou. — É fundamental evitar uma nova forma de colonialismo: o digital.
Os números mostram o abismo: 93% da população em países ricos tem acesso à internet, contra apenas 27% nas nações de baixa renda. Para 2,6 bilhões de pessoas, o mundo digital sequer existe. A defesa de Lula é por uma governança global da IA, com as Nações Unidas no centro, para que os frutos da tecnologia não se concentrem nas mãos de poucos.
E o trabalhador? O elo mais frágil da cadeia
Mas de que adianta falar em chips e algoritmos se 40% dos trabalhadores do mundo veem suas funções ameaçadas pela automação? O presidente foi categórico ao ligar o desenvolvimento tecnológico à garantia de trabalho decente.
“Cada painel solar, cada linha de código deve carregar consigo a marca da inclusão social”, disse aos líderes. A tecnologia, ele argumentou, deve fortalecer os direitos trabalhistas, não fragilizá-los.
O discurso em Joanesburgo foi mais do que um posicionamento diplomático. Foi a defesa de um novo pacto global, onde o Sul Global — dono dos recursos, mas historicamente à sombra da inovação — exige um assento à mesa onde o futuro é desenhado. A pergunta que fica é se as potências tradicionais estão dispostas a dividir o controle.
