O VLT da Bahia ganha uma função social direta. Um vagão adaptado para transportar até 240 kg de pescado por viagem promete mudar a rotina de marisqueiras e pescadores de comunidades como São João do Cabrito, unindo mobilidade urbana e sustento.
A cena se repete toda madrugada em pontos da Região Metropolitana: baús de isopor, sacas úmidas, o peso do sustento sendo carregado às costas ou em conduções improvisadas. Agora, parte dessa rotina ganha um capítulo novo — e sobre trilhos.
O VLT, que vem sendo testado em Salvador, terá um vagão exclusivo para o transporte de pescados. A capacidade chega a 240 quilos por viagem, mas o significado vai muito além do número.
Desenho que isola, solução que inclui
O modelo foi pensado para não interferir no fluxo de passageiros. O armazenamento é isolado, o que mantém o conforto dentro do trem e, ao mesmo tempo, garante condições adequadas ao produto que é a base da economia de famílias inteiras.
Para o governador Jerônimo Rodrigues, que participou da primeira viagem-teste nesta sexta (19), o investimento tem nome: qualidade de vida.
— Não estamos entregando apenas vagões adaptados — afirmou. — Estamos falando de mobilidade e desenvolvimento para quem depende do pescado para viver.
A voz de quem carrega o peso
Rosana Araújo, marisqueira da Colinas 67, em Paripe, não esconde o alívio. O novo vagão representa respeito e praticidade no dia a dia de quem lida com cargas grandes e pesadas.
— Vai facilitar muito. Com espaço próprio, a gente transporta com mais tranquilidade, sem constrangimento — disse ela, em depoimento que traduz o que políticas públicas concretas significam na pele.
Mais que um vagão: um sinal
A iniciativa joga luz sobre uma velha demanda: como integrar quem produz na periferia aos circuitos formais da cidade, sem torná-los invisíveis. O vagão exclusivo é um gesto de reconhecimento — um equipamento público que carrega, além do pescado, a dignidade de um ofício.
Agora, o desafio que fica é de integração: horários, acesso, logística. Mas, por enquanto, o que se vê é um primeiro passo material. Um trem que avança, e leva consigo — literalmente — o sustento de gente que sempre soube mover a Bahia, mesmo longe dos holofotes.
