Em Salvador, dois contêineres climatizados no Aquidabã e em Itapagipe são mais que postos de saúde. São a porta de entrada de uma política pública que tenta resgatar dignidade — e construir cidadania — para quem vive nas calçadas da cidade.
A rua é o território. E é nela, no fluxo imprevisível do dia a dia, que Salvador tenta costurar uma rede de cuidado para sua população em situação de rua. A política não fica trancada em um gabinete; ela opera de segunda a sábado em dois Pontos de Cidadania — estruturas modulares que parecem contêineres, mas funcionam como ilhas de acesso a direitos fundamentais.
A lógica é direta: em vez de esperar que a pessoa em vulnerabilidade extrema busque ajuda, o serviço se instala no caminho. O acolhimento começa sem burocracia. Uma equipe multidisciplinar — psicólogos, assistentes sociais, redutores de danos — faz a escuta. Não se trata apenas de tratar uma ferida ou dar um copo d’água. É identificar, junto com a pessoa, qual é o primeiro elo quebrado na corrente de sua cidadania: a falta de um documento, um tratamento de saúde interrompido, a distância da família.
Os números mostram a dimensão da demanda. Só neste ano, os dois pontos registraram 26.640 acessos — uma média de 50 atendimentos diários por unidade. São 50 histórias diferentes que cruzam a porta todos os dias. Ali, o acesso vai de um banho quente e um kit de higiene até rodas de conversa sobre saúde mental e encaminhamentos para a rede de assistência social e justiça.
“A presença contínua nos territórios permite um acolhimento humanizado”, explica Andrea Laís, gerente do Projeto Girassóis de Rua, que gere a iniciativa em parceria entre a SMS e a S3 Gestão em Saúde. Para ela, o compromisso é claro: “reduzir barreiras, promover dignidade”. O discurso, porém, esbarra em um desafio histórico: a frágil integração entre as políticas públicas.
— E é justamente nessa integração que o projeto tenta se firmar. Os Pontos não são um fim. São uma ponte articulada com CAPS, hospitais, Defensoria Pública, CRAS e até programas de geração de renda. A ideia é evitar que a pessoa, após ser acolhida, caia novamente no vazio entre uma portaria e outra.
As equipes passam por formação constante. O cuidado é pensado para ser “em liberdade”, com foco na redução de danos e na autonomia. Oficinas de arte e saúde acontecem na rua ao redor do contêiner, transformando o espaço público em lugar de vínculo.
Mas será que duas unidades são suficientes para uma cidade do tamanho e com as desigualdades de Salvador? A iniciativa é um avanço inegável — um esforço concreto de levar o Estado até onde ele mais precisa chegar. O sucesso, no entanto, ainda depende de uma rede maior que funcione. De que adianta acolher, escutar e encaminhar, se os serviços de destino continuarem sobrecarregados ou distantes?
A resposta, por enquanto, está no cotidiano desses dois contêineres. Está no café compartilhado, na emissão de uma certidão de nascimento, na conversa que não apressa o passo de ninguém. É pouco? Pode ser. Mas para os mais de 26 mil acessos de 2025, foi o primeiro passo para reescrever uma história — e talvez, só talvez, arrepiar um novo caminho.
