✦ Resumo

Instituto Butantan e MSD firmam parceria para produzir nacionalmente medicamento contra câncer para o SUS, visando reduzir custos e garantir abastecimento.

Diversos comprimidos sobre a mesa
Foto de Towfiqu barbhuiya na Unsplash

O Instituto Butantan firmou parceria com a farmacêutica norte-americana MSD para produzir nacionalmente o medicamento pembrolizumabe, um tratamento avançado contra o câncer, para o Sistema Único de Saúde (SUS). O acordo, resultado de um edital lançado em 2024 pelo Ministério da Saúde, prevê a transferência gradual de tecnologia ao longo de dez anos. O objetivo é reduzir custos, garantir o abastecimento e desenvolver a capacidade produtiva brasileira para terapias imunológicas.

Atualmente, o Ministério da Saúde gasta cerca de R$ 400 milhões por ano para atender aproximadamente 1,7 mil pacientes com o medicamento importado, conforme dados da Secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, Fernanda De Negri. O remédio é usado contra melanoma metastático, um câncer de pele agressivo. A conta é alta e a dependência do exterior, um risco. A ficha caiu: produzir aqui é questão de segurança nacional.

Segundo Fernanda De Negri, a produção nacional deixa o paciente mais seguro. “A gente produzir aqui deixa o paciente brasileiro com mais garantias de que esse medicamento não vai faltar por conta de eventos externos que causem a interrupção de cadeias logísticas”, afirmou. O contrato garante prioridade no fornecimento e, o mais importante, o desenvolvimento tecnológico do Butantan para futuras moléculas similares.

Demanda pode saltar para 13 mil pacientes ao ano

A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS avalia estender o uso do pembrolizumabe para câncer de colo do útero, esôfago, mama triplo-negativo e pulmão. Se aprovado, a MSD calcula que a demanda anual salte de 1,7 mil para cerca de 13 mil pacientes. O processo de transferência de tecnologia, no entanto, será lento e metódico. Conforme explicou o diretor executivo de Relações Governamentais da MSD Brasil, Rodrigo Cruz, as etapas serão incorporadas gradualmente.

“No começo, a ideia é que eles aprendam como se faz a rotulagem, o envase, para depois passar para formulação e aí sim chegar à etapa final que é a produção do medicamento em si”, detalhou Cruz. Leva até oito anos para produzir o ingrediente farmacêutico ativo nacional e, a partir daí, finalizar o remédio 100% nacional. A promessa é de autonomia, mas o prazo estica por uma década.

Estratégia nacional quer 70% de insumos produzidos no país

Esta parceria se insere em uma estratégia maior. O edital que a viabilizou faz parte de um plano do Ministério da Saúde para nacionalizar a produção de 70% dos insumos de saúde utilizados no SUS em até dez anos. O anúncio foi feito durante o evento ‘Diálogo Internacional – Desafios e Oportunidades para a Cooperação em Tecnologias em Saúde’, no Rio de Janeiro.

Em participação remota, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ressaltou a mudança de paradigma. “A saúde deixou de ser apenas uma política social e passou também a ser um eixo central do desenvolvimento econômico, inovação tecnológica e geração de empregos qualificados”, disse. Ele destacou o poder de escala do SUS, chamando-o de um dos maiores mercados estruturados do planeta em capacidade de absorção tecnológica. A conta chegou, e o Brasil decidiu não só pagá-la, mas aprender a fabricar o produto.

O caminho está traçado: uma década de transferência de tecnologia, investimento em capacitação e a expectativa de milhares de vidas impactadas por um tratamento moderno. A pergunta que fica é se o cronograma será cumprido e se o SUS conseguirá, de fato, internalizar essa complexa fronteira da biotecnologia. O desafio é enorme, mas o primeiro passo, agora, está dado.

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Sobre o autor Lúcia L.F

Lúcia L.F. é co-fundadora e Diretora de Parcerias do BahiaBR.com. É uma empreendedora de mídia digital com mais de uma década de experiência, atuando em portais de notícias na Bahia desde 2011.