O erário baiano foi o ponto de partida para uma ofensiva institucional nesta quinta-feira (8). Sob o comando do Departamento de Repressão e Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (Draco), a Polícia Civil deflagrou a Operação Help Desk. O objetivo central é estancar um suposto fluxo de pagamentos por serviços tecnológicos que, segundo as investigações, jamais saíram do papel. A Justiça já determinou o bloqueio de ativos financeiros dos envolvidos para assegurar a recuperação dos valores públicos.
A investigação ganha contornos de gravidade ao revelar que as próprias ferramentas de controle interno da Polícia Civil detectaram as inconsistências. O caso levanta um questionamento inevitável sobre a eficiência da fiscalização em contratos de alta complexidade técnica, onde a entrega do “produto” nem sempre é física ou imediata.
O Mapa das Buscas e os Valores em Xeque
A investida policial não foi aleatória. Ao todo, 48 agentes se deslocaram para endereços de alto padrão, sinalizando que o foco da investigação recai sobre o estrato corporativo de Salvador e Feira de Santana. Os investigadores buscam provas em uma rede que envolve nove indivíduos e uma entidade jurídica.
Distribuição dos Mandados e Montantes:
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Salvador (10 mandados): Concentrados nos bairros Horto Florestal, Pituba, Candeal, Cidade Jardim e Patamares.
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Feira de Santana (1 mandado): Executado no bairro Lagoa Grande.
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Contrato 1 (Software): R$ 3 milhões destinados ao desenvolvimento de sistemas.
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Contrato 2 (Suporte): R$ 6,6 milhões para manutenção e assistência técnica.
A soma dos acordos sob suspeita alcança os R$ 9,6 milhões. Embora parte do aporte financeiro tenha sido efetuada, a interrupção dos repasses ocorreu imediatamente após a identificação das falhas na execução contratual.
Evidências e Apreensões Técnicas
Diferente de crimes convencionais, a prova no colarinho branco digital reside nos dados. Durante a manhã, as equipes recolheram um vasto arsenal de provas documentais e eletrônicas. Além dos tradicionais smartphones e computadores, a apreensão de uma central de backup é considerada o “trunfo” da operação. Esse equipamento pode conter o histórico de comunicações e registros financeiros que comprovem se houve, de fato, a intenção de não prestar o serviço acordado.
A dinâmica das irregularidades sugere um modelo de “empresa de fachada” ou de “inexecução deliberada”. Como pode uma estrutura de suporte técnico de R$ 6,6 milhões não deixar rastros de atividade? É essa resposta que o Draco busca ao cruzar os dados colhidos hoje com os depoimentos que devem ocorrer nos próximos dias.
Reflexos na Gestão Pública da Bahia e Salvador
O impacto deste caso ecoa na administração pública de toda a Região Metropolitana e do interior. A dependência estatal de softwares e suporte externo é crescente, tanto em Salvador quanto em Lauro de Freitas, cidades que concentram grandes polos de serviços. Casos como a Operação Help Desk acendem o alerta para a necessidade de auditorias mais rígidas em contratos de “nuvem” e desenvolvimento, onde a transparência muitas vezes é ofuscada pelo jargão técnico.
Para o cidadão baiano, a notícia traz um misto de indignação e alento. Indignação pelo volume de recursos que poderia ser destinado à segurança ostensiva ou saúde; alento pela demonstração de que os órgãos de controle, como o Draco, possuem capacidade de auditar a si mesmos e purgar desvios internos antes que o prejuízo se torne irreversível.
O Portal BahiaBR seguirá acompanhando o desdobramento jurídico desta operação. Até o fechamento desta edição, a defesa dos investigados não havia se pronunciado publicamente. O espaço permanece aberto para o contraditório.
