A Polícia Civil da Bahia prendeu 11 integrantes de uma organização criminosa em Simões Filho nesta terça-feira, 17 de março de 2026. A Operação Cluster, deflagrada pelo Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (DENARC), cumpriu 16 mandados de busca e apreensão e identificou o envolvimento do grupo no assassinato da líder quilombola Maria Bernadete Pacífico, a Mãe Bernadete, ocorrido em agosto de 2023. As investigações apontam que a célula criminosa atuava no tráfico de drogas e no comércio ilegal de armas na Região Metropolitana de Salvador.
Estrutura do crime organizado desmontada em ação conjunta
Foram 47 dias de investigação intensa que mapearam a logística do grupo. A reportagem do BahiaBR apurou que entre os presos estão uma mulher, apontada como operadora financeira da facção, e um homem responsável pela distribuição de drogas e armas. Os outros nove detidos atuavam diretamente no tráfico. Durante as buscas, os policiais apreenderam cadernos de anotações com detalhes da atividade ilegal, aparelhos celulares e uma série de documentos. O fato é que esses materiais, agora sob análise do Departamento de Polícia Técnica (DPT), devem revelar novas conexões do crime organizado na região.
Ninguém avisou os moradores. As ruas de Simões Filho amanheceram cercadas por equipes das unidades de elite da Polícia Civil. A ação contou com o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o Departamento de Investigações Criminais (DEIC) e o Departamento de Repressão e Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DRACO). O delegado titular do DENARC, Rafael Costa, afirmou que a operação “desarticula uma rede perigosa que aterrorizava a comunidade com violência e impunidade”.
Novo capítulo nas investigações do assassinato de Mãe Bernadete
As apurações da Operação Cluster trouxeram uma reviravolta no caso que chocou a Bahia há quase três anos. As investigações do DENARC conseguiram vincular integrantes da organização criminosa à morte de Mãe Bernadete, uma liderança histórica do Quilombo do Pitanga dos Palmares. Com o avanço das provas, a Justiça expediu novos mandados de prisão contra investigados que já estavam presos por outros crimes e também contra um foragido, todos acusados de participação no homicídio. O caso, que parecia esquecido, ganhou um novo e decisivo capítulo com a identificação dos suspeitos pela polícia.
Quem paga a conta é o morador. Enquanto isso, a comunidade quilombola ainda aguarda por justiça. A filha de Mãe Bernadete, ouvida pela equipe do BahiaBR sob anonimato, disse que a família “viveu todos esses anos com medo e sem respostas”. A operação desta terça-feira representa o maior avanço nas investigações desde o crime. O que pouca gente sabe é que o inquérito sobre a morte da líder permanece sob sigilo judicial, mas as novas prisões devem pressionar por uma conclusão.
O cenário muda quando se observa o histórico. A Polícia Civil da Bahia já realizou ao menos quatro operações de grande porte contra o crime organizado em Simões Filho apenas nos últimos dois anos, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-BA). A região, localizada a cerca de 30 quilômetros de Salvador, é palco de disputas territoriais entre facções que controlam pontos de venda de drogas. A Operação Cluster, no entanto, é a primeira a estabelecer um elo concreto entre o tráfico e o assassinato de uma liderança comunitária de tamanho simbolismo.
E a pergunta que fica: as prisões vão frear a violência? Especialistas em segurança pública consultados pelo BahiaBR são cautelosos. Para o professor e pesquisador em Segurança Pública da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Dr. Tiago Mendonça, “operações pontuais são necessárias, mas insuficientes sem políticas integradas de prevenção social e ocupação do território pelo Estado”. A história se repete. As autoridades agora correm contra o tempo para consolidar as provas e evitar que a estrutura criminosa se reconstitua, como já ocorreu em outros municípios da região metropolitana.
