Dor de cabeça intensa e manchas na pele são sinais do vírus
Um surto em Manaus forneceu dados cruciais para a ciência. Pesquisadores brasileiros acompanharam pacientes por 28 dias na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado. O objetivo era mapear a febre do Oropouche. O estudo, publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases, revela um perfil sintomático que se confunde com a dengue, mas apresenta nuances decisivas. A médica pesquisadora Maria Paula Mourão, da Rede Revisa, detalha as diferenças. “No Oropouche, a dor de cabeça costuma ser mais intensa, as dores articulares são mais frequentes, e as manchas na pele tendem a ser mais disseminadas”, afirmou ela à Agência Brasil. O vírus também provoca alterações hepáticas discretas. A dengue, por outro lado, apresenta um risco hematológico mais claro. A doença causa diminuição acentuada de plaquetas, elevando o perigo de sangramentos e choque.
Linha genética modificada impulsiona surto de 2024
A pesquisa identificou um agravante para o surto recente. Conforme o documento científico, uma linhagem reordenada do vírus Oropouche circulou em Manaus. Esta variante já era conhecida, mas passou por modificações genéticas. Os pesquisadores concluíram que essas mudanças conferiram maior virulência e capacidade de replicação. O fenômeno explica parte da intensidade do surto. A transmissão local contínua do vírus, somada a fatores ambientais favoráveis ao vetor, criou uma tempestade perfeita. O mosquito Culicoides paraensis, conhecido como maruim, é o principal transmissor. Diferente do Aedes aegypti, ele se reproduz em ambientes naturais úmidos, ricos em matéria orgânica. Bárbara Chaves, pesquisadora do Instituto Todos pela Saúde, aponta outros motivos para a dispersão da doença. “Essa dispersão pode ter ocorrido por um conjunto de fatores, como mudanças no uso da terra, incluindo desmatamento e desenvolvimento agrícola”, esclareceu.
Diagnóstico preciso ainda é um desafio para a saúde pública
Maria Paula Mourão é categórica: sintomas isolados não bastam para um diagnóstico seguro. A semelhança clínica entre as arboviroses exige confirmação laboratorial. Esta dificuldade redefine a prioridade para médicos e população. “Mais importante do que saber o nome da doença é reconhecer rapidamente os sinais de gravidade”, alertou a pesquisadora. Dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura e confusão mental demandam busca imediata por um serviço de saúde. Grupos como gestantes, crianças, idosos e portadores de doenças crônicas precisam de atenção redobrada. A recomendação médica para esses casos é clara: não aguardar a piora do quadro. A avaliação profissional deve ser precoce, mesmo diante de sintomas que pareçam leves inicialmente.
Estratégias de combate divergem entre as duas doenças
O enfrentamento da dengue e do Oropouche segue caminhos distintos. Para a dengue, o arsenal inclui o combate sistemático ao Aedes aegypti, a tecnologia Wolbachia e campanhas de vacinação. O vírus Oropouche, transmitido por um vetor de habitat silvestre, apresenta um controle mais complexo. Bárbara Chaves defende que a resposta passa por vigilância genética e diagnóstica. Monitorar a evolução dos vírus e melhorar a diferenciação laboratorial são ações essenciais, principalmente em regiões de circulação simultânea. O estudo reforça a necessidade de sistemas de saúde preparados para arboviroses emergentes. A capacidade de identificar padrões clínicos e genéticos rapidamente se torna uma ferramenta de saúde pública.
