A leitura do clássico “Geografia da Fome”, do pernambucano Josué de Castro, foi a base para a vitória do estudante José Henrique Pereira de Jesus, 17 anos, do Colégio Estadual de Tempo Integral de Tabocas, em Tabocas do Brejo Velho. Ele conquistou o primeiro lugar na 3ª edição do Concurso Literário de Redação 2025, uma iniciativa da Secretaria da Educação do Estado da Bahia (SEC) em parceria com o Sindicato das Indústrias de LaticÃnios e Produtos Derivados do Estado da Bahia (Sindileite). O resultado, divulgado na quarta-feira, 19 de março de 2026, premiou uma análise que cruzou a teoria sobre segurança alimentar com a realidade econômica do Oeste baiano, região com expressiva produção pecuária. A ficha caiu tarde para muitos, mas o estudante mostrou que a chave para discutir o futuro está no entendimento profundo das raÃzes locais.
Como um livro de 1946 inspirou a redação vencedora na Bahia?
José Henrique não apenas citou Josué de Castro. Ele usou a obra de 1946 como lente para examinar o presente do seu território. O tema do concurso, que girava em torno da cadeia produtiva do leite, ganhou contornos de polÃtica pública e soberania alimentar em seu texto. âA estrutura da redação se desenvolveu de forma natural, partindo da reflexão sobre as raÃzes da minha regiãoâ, explicou o estudante ao BahiaBR. O fato é que sua argumentação saiu do lugar comum. Em vez de um discurso genérico, ele articulou dados da pecuária local, conhecimento de sala de aula e a crÃtica social presente em “Geografia da Fome”. Para a diretora da unidade escolar, Ana Paula de Castro Brito, a vitória é um recado. âEsse resultado nos emociona e fortalece a certeza de que estamos no caminho certo. A educação pública é transformadora e revela grandes talentosâ. A história se repete, mas agora com um final promissor para um jovem da rede estadual.
O segundo e terceiro lugares também foram ocupados por mulheres de escolas estaduais. Giovanna de Souza Silva, do Centro Estadual de Educação Profissional Professor Paulo Batista Machado (CEEP), em Senhor do Bonfim, ficou com a prata. Ela contou que o tema foi desafiador, mas que seus estudos no curso técnico deram suporte. Polyana Oliveira Silva, do Colégio Estadual de Brejolândia, no povoado de Mamonal, completou o pódio. O concurso distribuiu um total de R$ 9 mil em premiações aos vencedores e seus professores orientadores, um incentivo material que reconhece o esforço intelectual.
Qual o impacto real de um concurso de redação para a educação pública?
Mais do que premiar textos, a iniciativa busca fomentar uma cultura de pesquisa e escrita crÃtica. A diretora Elaine do Nascimento, do CEEP de Senhor do Bonfim, vê na conquista de sua aluna um efeito multiplicador. âCelebramos isso como um momento de orgulho para toda a comunidade escolar. O incentivo à leitura e à escrita é essencial para o desenvolvimento dos estudantes e amplia oportunidadesâ. O detalhe que muda tudo é a parceria com o Sindileite, que insere no debate educacional a perspectiva do setor produtivo, criando uma ponte entre a sala de aula e o mercado de trabalho regional. A vitória de um estudante de Tabocas do Brejo Velho, municÃpio com pouco mais de 11 mil habitantes, evidencia que o potencial intelectual está distribuÃdo por todo o estado, desafiando a concentração de oportunidades nos grandes centros.
Traduzindo: projetos como este funcionam como termômetro da qualidade do ensino e do repertório que os jovens estão construindo. A reportagem do BahiaBR ouviu especialistas que há anos acompanham a educação na Bahia, e a avaliação é unânime: quando o estudante consegue relacionar um clássico das ciências sociais brasileiras com a economia do seu municÃpio, algo importante está dando certo. à a aplicação prática do conhecimento. O concurso, em sua terceira edição, consolida um canal para ouvir as novas gerações sobre temas estratégicos. O reflexo disso pode ser visto no crescente número de inscrições, que bateu recorde este ano. A pergunta que fica é como escalar essa experiência para milhares de outros alunos. A conta é simples: investimento em bibliotecas, formação de professores e valorização da produção textual. Quem paga a conta é o morador quando isso não acontece.