O novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, assumiu o comando da equipe econômica há quinze dias sob forte pressão sobre as contas públicas. Ele herda desafios fiscais estruturais da gestão de Fernando Haddad e precisa conciliá-los com demandas emergenciais de um ano eleitoral, conforme análise de especialistas ouvidos pela Agência Brasil. Logo no início, Durigan anunciou um bloqueio de R$ 1,6 bilhão no Orçamento de 2026, valor considerado modesto diante da necessidade de cumprir as regras do arcabouço fiscal.
O bloqueio busca acomodar despesas obrigatórias dentro do limite de crescimento real de gastos, fixado em até 2,5% acima da inflação. A equipe econômica projeta um superávit primário de apenas R$ 3,5 bilhões. O problema é que, ao incluir precatórios e gastos fora do arcabouço, o próprio governo prevê um déficit primário de R$ 59,8 bilhões. A conta não fecha. E a pressão por mais gastos só aumenta.
Enquanto tenta segurar despesas, o ministro articula medidas de impacto imediato. Ele confirmou a edição de uma medida provisória que cria um subsídio de R$ 1,20 por litro para o diesel importado, com custo estimado em R$ 3 bilhões divididos entre União e estados. O governo busca conter a alta dos combustíveis. Paralelamente, Durigan trabalha em um pacote para reduzir a inadimplência, que já compromete mais de 27% da renda mensal das famílias, segundo o Banco Central.
Crise de credibilidade fiscal e metas em xeque
Para a doutora em Economia Virene Matesco, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), o principal problema está na dificuldade de cumprir as próprias metas. “O governo atual não consegue cumprir as metas que ele mesmo estabeleceu no arcabouço”, afirmou. Ela aponta que a fragilidade das regras e o crescimento da dívida pública, que saltou para 78,7% do PIB, comprometem a confiança. Existe uma crise de credibilidade fiscal, alertou Matesco, destacando o desequilíbrio entre despesas com juros e investimentos públicos.
O economista André Nassif, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que parte das dificuldades vem de metas excessivamente ambiciosas definidas no início da gestão Haddad. O governo originalmente estabeleceu meta de déficit zero em 2024 e superávit primário de 0,5% do PIB em 2025. Na LDO de 2025, prolongou a meta de déficit zero para 2025 e reduziu para 0,25% do PIB a meta de superávit para 2026. “O mercado entenderia se o governo estabelecesse meta de pequeno déficit em 2025”, disse Nassif. “O importante era que houvesse um compromisso em reduzir o rombo.”
Baixo investimento e crescimento irregular
O aperto fiscal, segundo Nassif, limitou investimentos públicos. Eles seguem em patamar baixo, cerca de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), valor insuficiente para sustentar um crescimento econômico robusto. O país não entrega. “Continuamos no ‘stop and go’”, afirmou o professor. A equação permanece em aberto: como reconstruir a credibilidade das contas públicas sem comprometer o crescimento?
Outras medidas podem pressionar os gastos. Uma possível redução, durante a campanha eleitoral, da alíquota de 20% sobre compras do exterior de até US$ 50 – a chamada “taxa das blusinhas”. Só no ano passado, esse tributo rendeu R$ 5 bilhões aos cofres públicos. Durigan também propôs mudanças estruturais, como a automatização da declaração do Imposto de Renda. Essa medida, no entanto, não afeta a arrecadação, focando apenas na redução da burocracia.
O novo ministro herdou uma pasta sob tensão. De um lado, a rigidez orçamentária e os gastos obrigatórios que engessam o Orçamento. De outro, a demanda política por alívio imediato em ano eleitoral. O pacote de renegociação de dívidas das famílias, por exemplo, pode não gerar custo inicial. Mas se envolver subsídios, a conta chega. O espaço para manobra é mínimo. A história se repete, e a pergunta que fica é se Durigan conseguirá fazer diferente com os mesmos instrumentos e a mesma margem estreita que limitou seu antecessor.