Como um prato tradicional virou motor econômico no semiárido?
A celebração do Dia Mundial do Cuscuz, nesta quinta-feira (19 de março de 2026), vai além do reconhecimento cultural. Na Bahia, o patrimônio imaterial da Unesco se transformou em uma poderosa alavanca econômica para o semiárido, com investimentos estaduais superiores a R$ 11,7 milhões injetados diretamente em cooperativas de agricultura familiar. O resultado é mensurável: 55 empregos formais criados e o fortalecimento da renda para mais de 3.120 famílias cooperadas, que agora agregam valor ao milho que plantam. A reportagem do BahiaBR analisou os dados oficiais e constatou que o apoio à industrialização do grão está revertendo um histórico de venda da produção in natura por preços baixos.
Do campo ao flocão: a receita do sucesso em Araci
O fato é que a transformação começa no beneficiamento. Na comunidade de Caldeirão, em Araci, a Cooperativa de Produção e Comercialização (COOPAC Araci) recebeu mais de R$ 2 milhões da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR). O recurso foi para máquinas e requalificação da unidade. O diretor José Adailton explica o salto: “Os cooperados deixaram de vender o milho in natura por baixo valor e passaram a processar a própria produção”. A unidade, que tem capacidade para 18 toneladas de flocão Parangu por mês, gerou cinco empregos com carteira e beneficia 120 pessoas. O produto não transgênico já abastece mercados em 11 cidades baianas e chega a Salvador e ao estado de São Paulo. Agora repare: o investimento público fez mais do que modernizar uma fábrica. Ele quebrou um ciclo de baixa remuneração no campo. Rivailton Oliveira, presidente da COOPAC Araci, atribui a boa aceitação do flocão aos selos de certificação e à história de 36 anos da comunidade. A coisa tá feia para quem ainda depende da venda do grão bruto, mas para os cooperados do Sisal, a conta começou a fechar para o lado deles.
Irecê bate recorde de produção com milho crioulo
Enquanto isso, no território de Irecê, os números são ainda mais expressivos. A Cooperativa Agropecuária Mista Regional de Irecê (Copirecê) movimenta 120 toneladas de flocão por mês com a marca Puro Milho. O apoio do Governo do Estado, via CAR, totaliza R$ 9,7 milhões em investimentos. O presidente Zene Vieira destaca que, há quase vinte anos, a entidade “transforma o trabalho da agricultura familiar em desenvolvimento, renda e oportunidades”. A cooperativa gera 50 empregos diretos e beneficia cerca de 3 mil cooperados, oferecendo uma linha completa com fubá, canjiquinha e até macarrão de milho. O que salta aos olhos é a escala: a produção mensal da Copirecê equivale a mais de seis vezes a capacidade da unidade de Araci, mostrando como o modelo é replicável e potente para diferentes regiões. A distribuição alcança as regiões Nordeste, Sul e Sudeste do país, além do Acre, provando que o cuscuz baiano conquistou o Brasil. Para efeito de comparação, a receita gerada por essa cadeia sustenta milhares de famílias em um dos biomas mais desafiadores do país.
O impacto real vai muito além da cozinha
Na prática, o que esses números secos representam? Segurança econômica. Acesso a mercados formais. Fixação do jovem no campo com emprego registrado. O flocão virou moeda de desenvolvimento. O investimento em infraestrutura de beneficiamento, detalhado nos relatórios técnicos da CAR, foi o ponto de virada. Antes, o agricultor estava refém do preço do saco de milho. Agora, ele controla parte da industrialização e embala um produto com marca, rastreabilidade e valor agregado. A pergunta que fica: até onde pode chegar? A rede de distribuição já extrapolou os limites estaduais, e a demanda por alimentos não transgênicos e de origem familiar é uma tendência crescente no mercado. O desafio, monitorado há anos pela cobertura do BahiaBR, será manter a qualidade e a identidade cultural diante da expansão. O cuscuz saiu do prato e virou um caso de sucesso de política pública rural. E a história, como bem sabem no semiárido, está apenas no primeiro furo da cuia.