Mestres de capoeira se tornaram super-heróis em duas obras de cordel distribuídas gratuitamente nesta quarta-feira (8), na Casa das Histórias de Salvador, no Comércio. A ação, realizada pela Secretaria de Cultura e Turismo (Secult), integrou a programação do Dia Nacional do Livro Infantil e ocorreu no dia de visitação gratuita aos equipamentos culturais públicos da cidade. Os visitantes receberam os cordéis “A Lenda do Badauê” e “Mulungu de Ronda”, criações do ilustrador e comunicador Eddy Azuos, e participaram de um bate-papo com o autor.
O questionamento que deu origem às obras foi direto. “Por que a gente não usa capoeiristas como fonte de inspiração para construir nossos próprios super-heróis?”, explicou Eddy Azuos. Ele criticou a ausência de referências nacionais no gênero, onde ninjas e monges estrangeiros são comuns, mas as raízes brasileiras ficam de fora. A ideia, então, foi criar um universo heroico a partir da capoeira e das histórias locais. O visual do protagonista de “A Lenda do Badauê” é uma homenagem ao Mestre Moa do Katendê, enquanto “Mulungu de Ronda” resgata a figura histórica do líder escravizado João Mulungu.
Do rap ao cordel: o desafio da métrica e da sonoridade
Egresso da cultura hip-hop, Eddy Azuos enfrentou um desafio técnico interessante. Ele adaptou a métrica de composição do rap às regras rígidas da literatura de cordel. O primeiro livro foi escrito em quintilhas; o segundo, em sextilhas. O autor destacou a necessidade de atenção à rima, à cadência e, principalmente, à sensibilidade de quem vai consumir a obra. “O cordel foi feito para ser recitado, não apenas lido; por isso, é preciso escrever imaginando a sonoridade”, afirmou. Tudo, segundo ele, precisa fazer sentido para o público, evitando palavras fora de contexto para garantir a compreensão. Foi essa complexidade criativa que o fisgou.
Um dos visitantes que teve o primeiro contato com esse universo foi o bancário Alfredo Bonini, natural do interior de São Paulo e de férias em Salvador. Ele, que costuma ler os clássicos, nunca havia pegado um livro de cordel. “É muito bom conhecer obras como essa, sobretudo com personagens que representam outras culturas”, comentou. A cena na Casa das Histórias misturava curiosidade e descoberta, mostrando o poder de uma narrativa que fala de perto com a identidade local.
Democratização da leitura e novos heróis no horizonte
Para Eddy Azuos, levar suas histórias para um espaço público como a Casa das Histórias é um ato fundamental de democratização. Ele já havia participado da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) em 2023, com a mesma distribuição gratuita. O autor acredita no efeito multiplicador da iniciativa. Tenho certeza de que as pessoas sairão daqui com vontade de conhecer outros super-heróis negros capoeiristas ou até de criar suas próprias histórias, disse. E completou: “Quando vemos alguém fazendo algo simples, como um livro de poucas páginas, percebemos que também somos capazes”.
O encontro também serviu para um anúncio. O próximo lançamento do autor se chamará “Maria do Cambotá”, apresentando uma super-heroína no universo da capoeira. Os traços da personagem serão inspirados na Mestra Janja, do Grupo de Capoeira de Angola Nzinga, com sede em Salvador. A promessa é expandir ainda mais esse panteão de heróis que, longe de ser importado, brota diretamente do solo cultural baiano e luta contra o apagamento histórico. A conta do esquecimento, afinal, ninguém mais quer pagar.