O Centro de Referência em Epilepsia Refratária (CRER) do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), em Salvador, completa um ano de funcionamento nesta quinta-feira, 19 de março de 2026, com um balanço de mais de 1.700 atendimentos multidisciplinares realizados. A unidade, que evitou a migração forçada de pacientes para outros estados, celebra a data com um curso de qualificação e ampliação do debate sobre a doença, reunindo especialistas, pacientes e familiares no auditório do hospital. A iniciativa consolida um serviço público essencial para um tratamento complexo que antes não era oferecido na capital baiana.
Como o centro mudou a vida de pacientes com epilepsia?
Márcia Macedo já tinha as malas prontas. O plano era levar o filho, Paulo Henrique, para Ribeirão Preto, em São Paulo, em busca de um tratamento especializado que simplesmente não existia em Salvador. O que pouca gente sabe é que essa realidade mudou há exatamente doze meses. “Descobrimos o CRER aqui no Roberto Santos e não precisamos mais viajar para meu filho ter um tratamento de excelência”, relata Márcia, um dos depoimentos que serão compartilhados no evento comemorativo. O centro hoje possui 320 pacientes cadastrados e já realizou cirurgias para casos de difícil controle medicamentoso, um marco para a saúde pública estadual.
Foram 47 dias entre a primeira consulta e a cirurgia de um paciente adulto, um tempo considerado ágil para um procedimento de alta complexidade. A programação do aniversário, que começa às 8h30, vai da palestra “Como melhorar a vida das pessoas com epilepsia?” a discussões profundas sobre neurocirurgia, saúde mental, dieta cetogênica e o uso de canabidiol. O fato é que o modelo de atuação interprofissional será detalhado pela equipe do CRER, composta por neuroclínicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas e farmacêuticos.
Qual o caminho para conseguir atendimento no CRER?
O acesso ao serviço é regulado. Traduzindo: pacientes com diagnóstico de Epilepsia Refratária, já acompanhados por um neurologista, precisam ser encaminhados via Sistema de Regulação Ambulatorial (SRA). O neurologista responsável deve preencher, assinar e carimbar uma ficha de encaminhamento específica, disponível no site da Secretaria de Saúde da Bahia. O paciente, então, protocola esse documento em uma Prefeitura-Bairro ou na Secretaria de Saúde do seu município para aguardar a marcação da consulta. Na data agendada, ele deve apresentar o formulário preenchido corretamente no HGRS. O CRER representa um alívio para famílias que antes esgotavam suas economias em jornadas exaustivas para centros médicos fora do estado, um custo humano e financeiro que agora pode ser investido no próprio tratamento.
A reportagem do BahiaBR acompanha a demanda por serviços de alta complexidade neurológica na Bahia há anos. Dados do Conselho Regional de Medicina da Bahia (CREMEB) mostram uma carência histórica de especialistas nessa área no interior. O CRER surge não apenas como um centro clínico, mas como um eixo de formação e qualificação. O curso desta quinta-feira é a prova disso, com mesas redondas mediadas por especialistas que vão botar o dedo na ferida sobre a integração necessária entre as diversas frentes de cuidado.
E a pergunta que fica: o modelo será expandido? A estrutura atual do HGRS demonstra capacidade operacional, mas a fila de esperta por uma vaga no SRA é a próxima grande batalha. Para se ter ideia, a epilepsia refratária afeta cerca de 30% dos pacientes com a doença, segundo a Liga Brasileira de Epilepsia. O sucesso deste primeiro ano, com seus mais de 1.700 atendimentos, coloca uma pressão natural por mais investimento. O que salta aos olhos é a economia gerada para os cofres públicos com a internalização de procedimentos caros. Quem paga a conta é o morador, mas agora, pelo menos, ele não precisa pagar também por uma passagem de avião.
