A Prefeitura de Salvador realiza nesta sexta-feira, 20 de setembro, uma nova etapa de seleção de famílias para os conjuntos habitacionais Vale do Cassange I, II e III, no programa Minha Casa, Minha Vida. O processo, conduzido pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas (Seinfra), ocorrerá às 9h30 no Edifício Roosevelt, no Comércio, com a presença do secretário Luiz Carlos de Souza e de órgãos de controle. A ação visa destinar unidades já construídas no bairro de Cassange, seguindo critérios de pontuação estabelecidos por lei federal e municipal, em um sistema que promete transparência através de classificação informatizada. O fato é que esta convocação tenta sanar uma defasagem crônica: a existência de moradias prontas, mas vazias, enquanto a fila por uma casa própria em Salvador só aumenta.
Como funciona a seleção para as casas no Cassange?
O sistema informatizado é o coração do processo. Ele ranqueia automaticamente os inscritos com base em uma pontuação calculada a partir de dados cadastrais, como renda familiar, número de dependentes e tempo de inscrição. A Seinfra garante que a máquina elimina interferências humanas na classificação final. Só que a reportagem do BahiaBR apurou que a transparência prometida esbarra na opacidade dos critérios de desempate. O que acontece quando duas famílias têm a mesma pontuação? O detalhe que muda tudo não foi divulgado publicamente pela gestão municipal. Moradores ouvidos pela equipe em coberturas anteriores relatam um sentimento de insegurança. “A gente fica no escuro, só esperando um nome sair numa lista”, desabafa uma candidata que prefere não se identificar.
Quantas famílias serão chamadas nesta etapa?
A Prefeitura de Salvador não divulgou o número exato de vagas ofertadas nesta etapa específica para os três conjuntos do Cassange. Essa falta de um dado básico dificulta a análise do real impacto da ação. Para se ter uma ideia, os empreendimentos Vale do Cassange I, II e III, juntos, somam centenas de unidades. A história se repete: a administração municipal anuncia processos seletivos sem transparentar a capacidade de atendimento. Olha o dado: segundo o último censo do IBGE, o déficit habitacional em Salvador supera 100 mil domicílios. Cada unidade do Cassange entregue representa uma pequena vitória contra esse gigante, mas o ritmo das convocações precisa acelerar. A conta é simples: divida o número total de unidades pela quantidade de etapas de seleção realizadas nos últimos anos. O resultado mostra um esvaziamento lento e que deixa milhares em espera.
Na prática, a presença de órgãos de controle no ato, como o Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA), é um reconhecimento tácito das falhas passadas. A equipe do BahiaBR acompanha a saga do Cassange desde a inauguração dos primeiros blocos. Já documentamos problemas de infraestrutura no entorno e a lentidão na ocupação. A maior ironia deste Friday é que, enquanto famílias disputam um sorteio por chaves novas, outras já moradoras do complexo ainda reclamam de itens básicos incompletos, como calçadas e iluminação pública. O cenário muda quando se olha para o todo: a política habitacional precisa ser um ciclo completo, da seleção à entrega de um bairro estruturado, não apenas de quatro paredes.
E a pergunta que fica: esta seleção esgota a lista de espera do Cassange? Tudo indica que não. A expectativa entre coletivos de moradia é de que novas chamadas ocorram em 2025. O legado deste processo vai além da entrega de chaves. Ele testa a capacidade da Prefeitura em executar um programa federal com agilidade e justiça social na segunda maior fila do Nordeste. Quem paga a conta da morosidade é o morador, que segue pagando aluguel ou vivendo em condições precárias. O fechamento desta etapa é apenas um capítulo. O livro do déficit habitacional de Salvador ainda tem páginas grossas para virar.