O Governo da Bahia, por meio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), implantou 8.546 tecnologias sociais de captação e armazenamento de água no meio rural entre 2023 e março de 2026. O investimento, que supera R$ 70,8 milhões, levou cisternas, barreiros e sistemas de abastecimento a milhares de famílias agricultoras, fortalecendo a produção de alimentos e a segurança hídrica diante das estiagens prolongadas no semiárido. A ação estratégica, que ganha destaque no Dia Mundial da Água (22 de março), reconhece o acesso hídrico como um direito fundamental e um eixo de desenvolvimento social no campo.
Como as tecnologias sociais combatem a seca na prática?
Foram R$ 70,8 milhões convertidos em estruturas concretas: cisternas de consumo e de produção, barreiros trincheira, aguadas e pequenas barragens. O fato é que cada uma dessas obras funciona como uma poupança hídrica. Elas captam a chuva que cai no período invernoso e a estocam para os meses críticos de seca. Na ponta do lápis, isso significa que uma família pode irrigar sua horta ou dar de beber aos animais mesmo quando os riachos da região secam completamente. A reportagem do BahiaBR visitou comunidades onde essas estruturas já operam e constatou a redução imediata da vulnerabilidade.
“Antes, eu gastava cerca de mil reais por mês para garantir água para o rebanho”. Quem faz o relato é o agricultor José Henrique Gonçalves, da Fazenda Cipó, em Macururé. A realidade dele mudou após a construção de um barreiro trincheira dentro da propriedade. Agora, a reserva hídrica está a poucos metros dos animais, eliminando o custo exorbitante com caminhão-pipa e o desgaste do transporte. O investimento em infraestrutura hídrica básica está quebrando um ciclo vicioso: em vez de gastar recursos escassos para comprar água, o produtor rural reinveste na própria produção.
Por que a água é um elemento estruturante para o desenvolvimento?
Kamilla Ferreira, coordenadora do programa Água para Todos na CAR, botou o dedo na ferida. “Todo o esforço para assegurar o acesso das famílias rurais à água está diretamente ligado ao reconhecimento desse recurso como um direito fundamental e como elemento estruturante do desenvolvimento social”, afirmou a especialista. A análise técnica vai além da mera entrega de uma estrutura. Trata-se de uma política de convivência com o semiárido que impacta cadeias produtivas, segurança alimentar e fixação do homem no campo.
Olhe o caso de Jovina Maria de Almeida, agricultora de Oliveira dos Brejinhos. “Essa cisterna vai ajudar muito a manter minhas hortaliças e as plantações. Aqui, durante a seca, a água é muito difícil, então ter essa reserva traz mais tranquilidade”. A fala dela sintetiza o que os números oficiais da CAR indicam: a tecnologia social funciona como um amortecedor contra os choques climáticos. E tem mais. Conforme o relatório da própria Companhia, essas ações se somam a outras políticas públicas, como assistência técnica e distribuição de sementes, criando um ecossistema de apoio à agricultura familiar.
O cenário de mudanças climáticas, com estiagens mais severas e imprevisíveis, transforma essas obras simples em estratégias de resiliência. A questão é outra: sem um planejamento hídrico descentralizado, as comunidades rurais ficam reféns de soluções de emergência, sempre mais caras e menos eficazes. As 8.546 ações executadas representam, portanto, uma mudança de paradigma. Elas antecipam a crise. O resultado é um semiárido menos dependente e mais produtivo, onde a água da chuva não escorre mais para o mar, mas fica armazenada no lugar certo: na propriedade de quem dela precisa para viver e trabalhar.