O som que trouxe a multidão de volta
O ritmo dos tambores do Olodum arrastou uma multidão. As ruas do Comércio, em Salvador, viraram um mar de gente embalado pelo samba-reggae na manhã desta quinta-feira (15). Para muitos, aquele som marcou mais que o início da Lavagem do Bonfim. Representou o retorno de uma tradição adormecida por 25 anos. “Ver o bloco de volta ao Bonfim depois de tanto tempo é emocionante”, contou a assistente social Jéssica Nascimento, de 40 anos, enquanto acompanhava o cortejo. “A gente sente orgulho e alegria de estar aqui vivendo isso.”
Uma política que ouviu a rua
Esse retorno só foi possível por uma mudança concreta. Conforme relato enviado ao portal, Marcelo Gentil, presidente Institucional do Olodum, foi direto: “Essa volta se deve exclusivamente ao importante apoio estratégico do Programa Ouro Negro. Sem esse apoio, ficaríamos mais uma vez de fora”. A fala de Gentil traduz o impacto do programa do Governo da Bahia, que destinou R$ 17 milhões em 2026 para fortalecer blocos afro, afoxés e grupos de cultura popular. Onze entidades desfilaram no Bonfim com esse incentivo. A mudança é palpável para quem organiza a festa. Murilo Câmara, responsável pelos blocos Ki Beleza e Samba & Folia, observa que a Lavagem sempre foi um desfile étnico do povo preto. “Isso foi se perdendo ao longo do tempo, mas começou a mudar quando o Ouro Negro passou a apoiar. Muitos grupos voltaram a existir e a ocupar esse espaço”, afirmou.
Mais que um desfile, uma afirmação
A energia que Maria da Conceição Santos, comerciante de 57 anos, sentiu não era só musical. “Quando eles passam, a gente sente a energia mudar. É música, é dança, é fé, é tudo junto”, declarou. A Lavagem do Bonfim, patrimônio imaterial do Brasil, respira esse sincretismo. Os cânticos, as roupas coloridas, o balanço dos corpos – tudo reafirma a identidade afro-baiana. Tonho Matéria, do bloco Mangangá Capoeira, vê no Ouro Negro uma reparação histórica. Ele lembra que, antes da política, esses grupos quase não tinham acesso a editais. “O Ouro Negro nasce da luta e traz uma política de igualdade, que entende os blocos para além do Carnaval”, pontuou. É um apoio que sustenta o trabalho anual, a manutenção de sedes, o ensaio de músicas e danças.
O futuro escrito no ritmo dos tambores
O programa cria um ciclo virtuoso. Edmilson Lopes, diretor do Ilê Aiyê, destacou que o apoio possibilita a saída e o retorno de blocos às ruas. Isso fortalece uma ação cultural que gera desenvolvimento social. A presença massiva do Olodum, com seus 120 percussionistas, dançarinos e alegorias, comprova esse efeito. A caminhada da Conceição da Praia até o Bonfim mostrou mais que fé. Revelou a força de uma cultura que resiste, se reinventa e celebra sua existência. O apoio do Ouro Negro não financia apenas um desfile. Ele investe na memória viva da Bahia. E, pelo som da multidão, essa memória tem um futuro barulhento e cheio de axé.
