Em evento para mais de mil servidores, o prefeito de Salvador projetou 2026 como o ano das grandes entregas. O encontro, que teve palestra da atriz Denise Fraga, buscou alinhar a máquina pública com um discurso de eficiência e conexão humana.
O Centro de Convenções de Salvador, na tarde desta quarta (17), virou palco para um ritual da administração pública: a reunião de mais de mil servidores de alto escalão em busca de sintonia. A nona edição do Encontro de Lideranças de Alta Performance, promovido pela Secretaria de Gestão (Semge), foi mais do que uma confraternização. Foi a demonstração de uma estratégia de governo.
Inspirado na linguagem do cinema, o evento tentou emplacar um roteiro de propósito e eficiência para os quadros que ocupam cargos de confiança na prefeitura. Um público do grau 54 ao 58 lotou a sala para ouvir, por horas, um discurso repetido em diferentes tons: a gestão precisa entregar.
O “trem” dos projetos e o olhar para 2026
No centro do palco, o prefeito Bruno Reis traçou a linha do tempo de sua gestão. Segundo ele, 2025 foi o ano dedicado ao planejamento. Agora, o foco se desloca para a execução das iniciativas desenhadas para os próximos três anos. A mensagem era de estabilidade e confiança no futuro. “O passado mostra o que nós construímos até aqui, mas é hora também de olhar para frente”, afirmou.
A imagem usada por ele foi reveladora: “O trem está no trilho e nunca saiu”. A fala tenta passar uma ideia de continuidade, de rota traçada. Mas a pergunta que fica nos corredores é se todos os passageiros — a população — sentirão o movimento dessa locomotiva a partir de 2026, ano que Reis apontou como o das “grandes realizações”.
A vice-prefeita Ana Paula Matos e o secretário Alexandre Tinoco, da Semge, seguiram na mesma toada. Valorização do servidor como peça-chave para uma administração “eficiente, humana e conectada”. Tinoco comemorou o sucesso de público do evento — “as inscrições se esgotaram” — e destacou a inovação da edição. Por trás do reconhecimento, uma expectativa clara: extrair desempenho.
Denise Fraga e o alerta contra a desconexão
Se a fala dos gestores municipais focava em resultados, a palestra principal trouxe um contraponto humanista necessário. A atriz Denise Fraga, consagrada nas artes cênicas, comandou a reflexão “Conexões Humanas em Tempos Digitais”.
Com a experiência de quem conhece o palco e a vida, ela cutucou uma ferida contemporânea: a desumanização acelerada pelo pragmatismo. “As relações estão sendo sacrificadas em detrimento de uma velocidade e de um pragmatismo que não fazem sentido”, alertou. Em um ambiente de gestores públicos, a crítica soou como um chamado direto.
— A vida está dura, mas ela é rica. A gente precisa achar brechas no meio do cotidiano para não se perder — disse Fraga, defendendo a atenção plena.
Sua fala foi um lembrete potente. Para ela, escutar de verdade é um exercício ativo — “é perguntar de novo, é repetir, é estar ali, sem o celular”. Uma mensagem que, em tese, deveria ser o cerne de qualquer administração pública que se diz “conectada com as pessoas”. Curiosidade e sensibilidade, para a artista, são antídotos contra a frieza dos processos.
O evento cumpriu seu papel de alinhamento e motivação interna. Resta saber se a crítica sobre desumanização, feita no conforto do auditório, ecoará para além dele, nos milhares de pontos de contato entre o poder público e o cidadão soteropolitano no seu dia a dia. O trem, como disse o prefeito, pode estar nos trilhos. Mas a qualidade da viagem ainda está por ser testada.
