Um dos maiores jornais do mundo põe os holofotes sobre a transformação de Salvador. O El País destaca como a cidade está virando o jogo, usando sua herança africana como alavanca para desenvolvimento e protagonismo negro no turismo.
A notícia ecoou longe: Salvador, com seu gingado único e ancestral, virou tema de reportagem especial no influente jornal espanhol El País. Não se trata apenas de um elogio pitoresco. A matéria vai fundo, capturando um movimento estrutural — a cidade está reescrevendo sua própria história.
E o ponto de partida é justamente aquele que, por séculos, foi usado para marginalizá-la: sua potência africana.
O jornal europeu enxerga o que qualquer baiano atento sente na pele e vê nas ruas: Salvador está transformando herança em motor de desenvolvimento. A gestão municipal, através do programa Salvador Capital Afro, tem uma meta ousada — inverter a lógica que mantinha a maioria negra da cidade à margem do turismo mais rentável. Agora, a estratégia é clara: fazer do afroturismo um eixo econômico vital, com narrativas e vivências negras no centro.
A reportagem passeia por esse novo mapa. Empreendedoras, mestres de cultura, iniciativas que dão novo sopro de vida ao Pelourinho e ao Centro Histórico. São personagens que não são mais coadjuvantes folclóricos; são donos do próprio negócio e da própria narrativa. — O som do atabaque agora tem CNPJ, e a história se vende com o rosto de quem a viveu.
Para a vice-prefeita e secretária de Cultura e Turismo, Ana Paula Matos, o reconhecimento valida um caminho. “Salvador sempre foi um celeiro de saberes. Agora, ganha o mundo com uma narrativa que respeita nosso passado e projeta um futuro de oportunidades”, disse. O discurso é forte e necessário. A cidade se tornou, de fato, um laboratório observado por outros países que buscam políticas de reparação através da economia criativa.
Mas a verdade é que o reconhecimento internacional é só um passo.
A pergunta que fica, e que o texto do El País apenas tangencia, é sobre o alcance real dessa transformação. A visibilidade global é um trunfo poderoso, sem dúvida. Atrai olhares, investimentos, curiosidade. No entanto, o desafio permanente é garantir que a prosperidade gerada pelo afroturismo seja distribuída com justiça — que vá além dos circuitos consolidados e atinja as comunidades em suas múltiplas complexidades.
Salvador é, hoje, uma referência incontestável. A capital negra das Américas que finalmente começa a ditar as regras do jogo sobre sua própria imagem. O mundo leu no El País. Agora, o trabalho — árduo e diário — é fazer com que essa bela história, contada em espanhol para milhões, se traduza em mudança concreta no asfalto quente de todo bairro, de toda favela, de todo terreiro. A reportagem é um troféu. O legado, esse ainda está sendo construído, no suor e na coragem do povo que faz a cidade.
