Salvador está mais barulhenta – e a conta é cara. Uma exposição na Estação da Lapa exibe equipamentos de som apreendidos, enquanto as denúncias batem recorde em 2025. A prefeitura tenta equilibrar fiscalização pesada com uma dose de conscientização.
Caixas de som imponentes, paredões que antes agitavam festas, agora silenciados e etiquetados como prova material. A cena chama a atenção de quem passa pelo térreo da Estação da Lapa. Não se trata de uma feira de eletrônicos, mas de uma exposição que coloca a poluição sonora no centro do debate público — e mostra o saldo de uma guerra urbana que só faz crescer.
Os números gritam mais alto que qualquer som. Só em 2025, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur) já registrou mais de 24 mil denúncias. Um aumento expressivo se comparado a 2024, que fechou com 23 mil reclamações. Os bairros campeões no ranking do incômodo são Itapuã, Pituba e Rio Vermelho — pontos tradicionais de vida noturna, mas também de residências.
A gerente de Fiscalização da Sedur, Márcia Cardim, deixa claro o duplo objetivo da ação. “Não é só apreensão e punição; é educação e orientação ao cidadão”, afirma. Ela reforça que o caminho para a denúncia é o 156, no calor do momento do episódio. E o detalhe: toda atividade sonora, seja de um comércio ou uma festa privada, precisa de autorização municipal. A transgressão sai caro.
Muito caro, na verdade. A multa para resgatar um equipamento apreendido pode variar de R$ 4 mil a espantosos R$ 235 mil, dependendo do nível de ruído medido. Muitos dos aparelhos expostos valem mais de R$ 50 mil — investimento que virou prejuízo. A lei é clara: das 7h às 22h, o limite é de 70 decibéis. No período da noite e madrugada (22h às 7h), cai para 60. É a diferença entre o volume de um aspirador de pó e o de uma conversa normal.
Mas será que mostrar o “troféu” apreendido converte em conscientização? Para a cuidadora de idosos Gabriela Gomes, 39, que parou para ver a exposição, a iniciativa é vital. “Enquanto a população não se educar, sempre terá som alto, paredão, porque é questão de educação e respeito”, reflete. Ela, que mora em uma rua mais tranquila, diz entender o desespero de quem sofre com a perturbação.
A principal fonte de conflito? Os veículos automotores, verdadeiros festas móveis que desfilam pelas avenidas. Para coibi-los, a Sedur age de forma rotineira e intensifica o cerco nos fins de semana com a Operação Sílere — uma força-tarefa que reúne agentes da própria Sedur, Transalvador, Guarda Municipal, PM e Polícia Civil.
A exposição na Lapa é mais um capítulo dessa tentativa de reduzir o volume da cidade. Uma mistura de pedagogia urbana e demonstração de força. Resta saber se a mensagem, entre decibéis e multas astronômicas, vai finalmente ser ouvida.
