✦ Resumo

Mais de 58 mil animais silvestres foram reabilitados e devolvidos à natureza na Bahia entre 2021 e 2025 por centros especializados do Inema.

Foto: Matheus Lemos/Inema|Sema

Como funciona o caminho de volta à liberdade para a fauna baiana?

Mais de 58 mil animais silvestres passaram pelos Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) entre 2021 e 2025. A reportagem do BahiaBR acompanhou a rotina de um desses centros e constatou que, após um rigoroso processo de reabilitação, muitos desses indivíduos conseguem retornar ao seu habitat natural. O trabalho, que combina atendimento veterinário, fiscalização e educação ambiental, representa a principal rede de socorro à fauna silvestre no estado, atuando como um elo crucial entre o resgate em situações de risco e a reconexão com a vida livre.

Da chegada ao voo livre: a jornada dentro do CETAS

A veterinária Joseana Lima, que atua no CETAS, detalha o processo minucioso. Animais como jiboias, sariguês, sanhaços e corujas-buraqueiras chegam por apreensões, resgates ou entregas voluntárias. Cada um é submetido a uma avaliação clínica completa. Recebem os cuidados necessários. Só depois partem para a fase de reabilitação, onde técnicos especializados avaliam se conseguem voar, caçar ou se defender sozinhos. O objetivo final é inequívoco: garantir uma vida plena em liberdade, longe de gaiolas ou interferência humana. O fato é que a soltura não ocorre ao acaso. Acontece semanalmente em Áreas de Soltura de Animais Silvestres (ASAS), locais previamente avaliados e classificados pela Portaria Inema nº 22.129/2021. A gestora do CETAS Pituaçu, Marta Calazans, explica a lógica. “Cada espécie tem um tipo de ambiente ideal. A gente analisa se o local tem alimentação adequada, vegetação e condições ambientais que permitam o equilíbrio do ecossistema”. Áreas com remanescentes florestais significativos e corpos d’água são priorizadas. Nesta sexta-feira, 20 de março de 2026, 50 animais reconquistarão sua liberdade. São aves, répteis e mamíferos que superaram traumas, ferimentos ou a captura ilegal. A equipe do BahiaBR viu de perto a preparação final. A ansiedade é visível, mas o protocolo é rígido. Cada caixa de transporte é aberta em um ponto estratégico da mata. A espera é silenciosa. E então, o primeiro voo. O primeiro deslizar entre as folhas. A cena se repete, animal após animal, até que o último desaparece na vegetação.

Um centro que é “equipamento meio” para políticas ambientais

Marta Calazans reforça que a missão do CETAS vai além dos cuidados clínicos. “O Centro não é um equipamento finalístico, mas um equipamento meio, fundamental para recepcionar e atender animais silvestres que precisam de ajuda, além de atuar em políticas públicas, no combate ao tráfico de animais silvestres e na educação ambiental”.

A estrutura, portanto, serve como base de dados viva para ações de fiscalização e conscientização. Atualmente, o Inema opera unidades em Salvador e Cruz das Almas, com uma terceira em construção em Barreiras, no oeste baiano. Essa expansão é vista como vital para cobrir um estado de dimensões continentais. Quem paga a conta é o animal quando o resgate demora. A ampliação da rede busca reduzir esse tempo, aumentando as chances de reabilitação bem-sucedida para espécies de todos os biomas baianos. A conta é simples: sem um local adequado para triagem e recuperação, animais apreendidos em operações policiais ou resgatados de acidentes teriam destino incerto. O trabalho contínuo das equipes, muitas vezes anônimo, evita que um problema de saúde pública se instale e devolve à natureza indivíduos que desempenham papéis ecológicos insubstituíveis, como controle de pragas e polinização. Para a população, o canal de acionamento é direto. O Disque Fauna do CETAS funciona via WhatsApp no número (71) 99661-3998. O serviço atende chamados para resgates de animais feridos, perdidos em áreas urbanas ou para receber entregas voluntárias daqueles que foram mantidos irregularmente em cativeiro. A orientação é clara: não tentar manusear o animal. Apenas isolar o local e acionar os profissionais. O que salta aos olhos nos dados é a escala do desafio. Mais de 58 mil atendimentos em quatro anos mostram a pressão constante da urbanização e da ilegalidade sobre a fauna. Mas os números também revelam a capacidade de resposta. Cada soltura, como a desta sexta-feira, é um contra-argumento ao desaparecimento silencioso das espécies. É a prova de que, com técnica e infraestrutura, é possível reescrever finais trágicos. O BahiaBR cobre a pauta ambiental há mais de uma década e testemunha que, na ponta do lápis, o investimento em reabilitação gera dividendos imensuráveis para o equilíbrio do próprio território baiano, como também demonstram iniciativas como o Agente Jovem Ambiental e o Plano Estadual contra Desertificação. Ações de fiscalização e o fortalecimento de políticas públicas, como o PL do Cacau que defende produtores, são igualmente cruciais para a proteção do meio ambiente e das comunidades que dele dependem.

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Sobre o autor

P. Fonseca é o fundador e editor-chefe do BahiaBR.com. Com mais de 20 anos de experiência em publicação digital e criação de conteúdo — desde os primórdios de plataformas como Blogger, MySpace e Orkut — P.